Contos de fadas quase sempre nascem de uma fuga da realidade. Geralmente ouvimos falar deles na infância, como se alguém estivesse nos preparando para a vida real, que está longe de ser cheia de fadas, animais falantes, castelos e florestas encantadas. É engraçado porque, conforme vamos crescendo, deixamos de acreditar no encantamento, e a realidade fica cada vez menos mágica do que quando ouvíamos histórias de feijões, gigantes e ursos que falam.
Em sua primeira coleção de alta-costura para a Chanel, Matthieu Blazy fez questão de iniciar sua jornada por uma vila de cogumelos como as das fábulas infantis, mas, agora, conta uma história que vai ainda mais fundo na floresta. Não existem portais secretos, passes de mágica ou um momento de divisão exata entre o que é mágico e o que é real. As duas coisas coexistem.
Quando a primeira modelo cruza a passarela, ela carrega uma bolsa em uma das mãos e um livro velho na outra. Seus pés vestem um sapato com um "pé de feijão". A história é contada ao longo do desfile: vemos feijões como bordados, bolsas e botões; ovos de ouro nos ombros e nos saltos; bolsas que são galinhas botando ovos de ouro; vestidos inteiros florescendo como a semente plantada por João, que o leva até o céu.
Cachinhos Dourados também entra para a história com uma homenagem na beleza, botões com elementos da personagem, além de ursos por todo o look. O Gato de Botas, o Patinho Feio e outros personagens das histórias infantis passam pelos caules enquanto uma voz, ao fundo, faz um check-list de uma enorme lista de tarefas cotidianas.
Mesmo na pressa de uma vida mais corrida, é impossível não se atentar aos detalhes. Os bordados com miçangas e lantejoulas formam estampas que se tornam especiais quando vemos mais de perto. Os forros são floridos e só conseguimos enxergá-los pelas pequenas fendas que se abrem com o movimento do corpo. A transparência e as rendas continuam brincando com o que podemos ver além do primeiro olhar.
Em certo momento, as roupas ficam mais sérias. A alfaiataria ganha destaque com coletes e blazers longos em tons neutros e aviamentos menos fantasiosos. Depois disso, os vestidos e os tailleurs passam a equilibrar os dois mundos: ainda existe fantasia, mas agora ela faz parte do mundo real. A modelagem é mais clássica, mas os detalhes vêm nas costas, no volume das flores e no dourado que adorna os vestidos.
A noiva não encerra o desfile. Ela passa como um look comum entre tantos outros. Acho que é aqui que conseguimos entender completamente como se desenrola a história de Matthieu Blazy na Chanel. A fantasia não é uma fuga da realidade, ela é parte dela. O mundo real e o encantado são os mesmos. Ser feliz para sempre é parte da história, não seu final.
