Nunca fui muito fã de cancerianos; sempre achei que fogo e água não fossem a melhor das combinações. Mas, depois de cinco dates, talvez eu esteja apaixonada. Lembro que, na primeira vez que o vi, era como se todos os planetas tivessem se alinhado e um novo universo surgisse para mim. Na segunda, um encontro no metrô me fez olhar para a beleza da vida cotidiana. Na terceira, começamos a olhar para funcionalidade e construção. Na quarta, já entendi que aquilo era como um conto de fadas. E agora, no quinto, mergulhei de vez em algo que já tomou conta de mim.
Matthieu continua seguindo os roteiros de Coco Chanel; dessa vez, o itinerário o levou até Biarritz, na costa basca que foi casa do primeiro ateliê de alta-costura da Chanel. Apaixonado por sereias, o estilista transformou um cassino à beira-mar em praia — menos literal que o Spring-Summer 2019, mas com um encanto bem parecido.
Quem abre o desfile é um clássico vestidinho preto da Chanel, pontuando como, para Matthieu, referenciar o passado e tê-lo como ponto de partida é mais do que essencial. O designer faz questão de dizer que alguns looks foram reproduções de croquis da época, encontrados no ateliê. Os figurinos listrados criados para o balé Le Train Bleu também foram lembrados, tanto no vídeo promocional quanto no desfile.
É como mergulhar mesmo. A Chanel de Matthieu Blazy é lúdica e, em Biarritz, a transparência dos vestidos remete a corais e redes. Os blazers e as saias repetem essa estética, mas com um acabamento que brilha de forma suave, como a luz do sol quando toca o mar. As saias têm um movimento que desliza pela passarela enquanto hipnotiza, como se fossem anêmonas. Os vestidos têm um toque marinheiro — seja pelo recorte triangular na parte de cima, pelas duas cores combinadas ou pelas listras que podem vir daqui, ou dos guarda-sóis de quem está pronto para passar o dia olhando o mar.
Mesmo em composições menos solares, o Cruise da Chanel é leve, ousado e muito divertido. Os prints de imagens praianas dominam looks inteiros. O movimento é essencial e faz a coleção parecer guiada pelas ondas. Os tecidos são leves, e o trabalho artesanal contribui para a narrativa litorânea com trançados e bordados, assim como os acessórios, que vão de conchas a estrelas-do-mar. No meio disso tudo, uma infinidade de double C da Chanel aparece de forma explícita, quase sempre como holofote da peça, moldando silhuetas mais ousadas, com ombros de fora e fendas avantajadas.
Com O Diabo Veste Prada 2 batendo à porta, a cena clássica de “Você está usando...?” “Sim, as botas da Chanel” ganha uma nova versão: é impossível não olhar para as galochas over the knee — e talvez agora o diabo queira vestir Chanel. Os sapatos, com o peito do pé no chão, mas apoiados em um salto, me fazem pensar sobre a habilidade de Matthieu em conduzir uma coleção em equilíbrio: sonhando alto, mas com os pés no chão; se jogando no mar, mas sempre onde os pés ainda tocam a areia.
Aqui, percebi que já tinha caído no canto da sereia, e duas delas vieram fechar o desfile: um tailleur laranja e um vestido azul. Ambos pareciam encantados, com escamas brilhantes em uma transição de cores perfeita.
No casting, Matthieu continua abraçando uma infinidade de mulheres Chanel e, desta vez, o double C veio com duas vidas em um look só: uma modelo grávida desfilando com uma bolsa que tinha, como charm, um sapatinho da marca.
A Chanel de Matthieu Blazy é fértil – não no sentido biológico, mas no sentido de como é especial vê-la crescer a cada passo. É como se todos os meses de gestação, esperando pelo novo nome da marca e, depois, por sua primeira coleção, tivessem se transformado em um sonho de Chanel que todo mundo ama ver, e que traz um respiro depois de tanto rodar dando voltas nas cadeiras.
Gosto de levar um tempo para garantir que estou apaixonada, mas, depois de cinco encontros, talvez o que a gente mais queira é ver Matthieu entrando na passarela com seu sorriso tímido, aplaudido por entregar tanto amor a um lugar tão especial.
Se um dia as coisas na Chanel não pareciam tão empolgantes, Matthieu Blazy traz de volta a sensação de querer — e poder — amar de novo; de se encantar com o que já foi visto, mas que agora é apresentado sob uma nova ótica. Em seu primeiro show de Cruise, Matthieu Blazy reafirma que foi a melhor escolha para a Chanel.
Sem querer ser emocionada, mas na última vez que nos vimos, terminei o texto dizendo: “Será que depois de todas as estreias, podemos cravar um felizes para sempre?”, e agora, depois de cinco encontros, falo com toda certeza do mundo: Eu aceito.
