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Diana Al Shammari conquistou o mundo fazendo camisas de futebol florescerem. A artista nasceu em Bagdá, no Iraque, mas deixou o país com a família em 2003, durante a guerra. Viveu por alguns anos no Egito antes de se mudar para a Califórnia, onde passou grande parte da adolescência. Hoje, mora em Londres, cidade que se tornou a base para um trabalho que une bordado, design e cultura do futebol.

Muito antes de se tornar conhecida como The Football Gal, o futebol já ocupava um papel fundamental em sua vida. Em meio aos desafios da infância e às mudanças de país, foi através da televisão — e do anime Captain Tsubasa — que Diana encontrou no esporte um lugar de pertencimento. Anos depois, essa paixão se transformaria em uma carreira que mistura arte, identidade e memória, ressignificando algumas das camisas mais icônicas do futebol mundial.

Seu trabalho já deu novos significados a uniformes de clubes e seleções de diferentes países e chamou a atenção de atletas e grandes marcas. Diana desenvolveu projetos especiais para nomes como George Russell, Kimi Antonelli, Jules Koundé, Vicky López e até Joe Jonas. Em 2024, também assinou sua própria versão da icônica Predator, da adidas, um modelo que passou a integrar o arquivo histórico da marca.

Em entrevista à Hylentino, Diana relembra a trajetória que a levou do Iraque aos maiores projetos de sua carreira, fala sobre o papel das mulheres na indústria do esporte, revela a camisa que ainda sonha em bordar e conta por que sonha em viver uma Copa do Mundo Feminina no Brasil.

Confira a entrevista completa:

1. Em que momento você percebeu que o futebol mudaria a sua vida?

Não acho que tenha existido um único momento em que eu tenha percebido isso conscientemente. Olhando para trás, o futebol sempre esteve presente quando eu mais precisei. Esteve no Iraque, no Egito, nos Estados Unidos e, mais tarde, em Londres. Toda vez que minha vida mudava, o futebol permanecia.

Na verdade, acho que percebi isso muito antes de existir a The Football Gal. Ainda adolescente, eu já sabia que queria trabalhar com futebol de alguma forma. O problema era que eu não fazia ideia de como isso seria possível. Na universidade, troquei de curso várias vezes porque estava sempre tentando encontrar um caminho que me levasse ao universo do futebol. Passei da engenharia para a psicologia e depois para administração, sempre me fazendo a mesma pergunta: como transformar aquilo que eu amo em uma carreira?

O engraçado é que, depois de tudo isso, acabei criando o meu próprio caminho. A função que eu procurava simplesmente não existia, então precisei construí-la.

Quando olho para trás, percebo que praticamente todas as decisões importantes da minha vida foram influenciadas pelo futebol. Ele moldou minhas amizades, minha carreira, minha criatividade e até os países em que vivi. O que começou como uma forma de escapar da realidade acabou se tornando a lente através da qual passei a entender o mundo.

2. Por que você escolheu as flores?

Sempre gostei da tensão entre coisas que as pessoas acreditam que não combinam. O futebol costuma ser associado à força, à competição e ao desempenho. As flores, por outro lado, remetem à delicadeza, à beleza e à suavidade. Unir esses dois universos cria algo inesperado.

Mas as flores também carregam histórias. Cada país tem espécies nativas que refletem sua história, geografia e cultura. Quando pesquiso uma camisa, não estou olhando apenas para as cores e o escudo, mas também para símbolos, tradições e identidades. As flores se tornaram a minha maneira de contar essas histórias através do futebol.

3. O que mudou dos seus primeiros bordados para os que você cria hoje? Não apenas tecnicamente, mas como a Diana mudou?

Tecnicamente, tudo evoluiu. Meu bordado hoje é mais limpo, mais ambicioso e muito mais detalhado do que quando comecei.

Mas a maior mudança foi a confiança.

No início, eu sentia que precisava provar que merecia ocupar espaço tanto no futebol quanto no universo criativo. Eu me via como alguém de fora em ambos os ambientes. Com o tempo, aprendi a confiar muito mais na minha intuição e na minha perspectiva. Já não passo tanto tempo preocupada se as pessoas vão entender o que estou fazendo. Descobri que os trabalhos mais significativos normalmente surgem quando você cria primeiro aquilo que faz sentido para você.

4. Você já acumulou colaborações de muito sucesso. Existe alguma que tenha sido especialmente marcante? Por quê?

A colaboração com a adidas Predator se destaca acima de todas.

Crescendo no Iraque, o futebol sempre pareceu algo um pouco distante. Minha família não tinha condições de comprar chuteiras, muito menos um par de Predator. Eu nem sequer tinha minhas próprias camisas de futebol: pegava escondido as do meu irmão e implorava para ele me deixar jogar com seus amigos. Depois, quando a guerra começou, ficou perigoso brincar na rua, então o futebol passou a existir quase exclusivamente através da televisão. Era algo que eu assistia, sonhava e imaginava fazer parte, mas raramente conseguia viver de verdade.

Por isso, esse projeto com a Predator foi tão emocionante. A Predator não é apenas uma chuteira; ela é um dos maiores ícones da história do futebol. Passar de uma criança que vivia o futebol através de uma tela para alguém convidada a criar sobre essa silhueta foi simplesmente surreal.

Foi um daqueles momentos raros em que o meu passado e o meu presente se encontraram. Quando finalmente segurei a chuteira pronta nas mãos, senti que um ciclo tinha se fechado — uma prova de que a vida (e o futebol) às vezes nos leva a lugares que jamais imaginaríamos ser possíveis.

5. Existe alguma camisa que tenha marcado a sua vida e que você ainda sonhe em “florescer”?

A camisa da França de 1998.

É a minha camisa de futebol favorita de todos os tempos e uma das primeiras que consegui comprar com o meu próprio dinheiro. Zidane era o meu herói quando eu crescia, e essa camisa representa muitas das coisas que mais amo no futebol: beleza, nostalgia, identidade e memória.

Penso em bordá-la há anos!!! Mas, às vezes, justamente as camisas que mais significam para nós são as mais difíceis de tocar. Quem sabe este seja finalmente o ano?

6. No ano que vem teremos a Copa do Mundo Feminina. Você tem algum plano especial para esse período?

Ainda não tenho nada concreto, mas adoraria estar no Brasil durante o torneio.

Nunca deixei de ser fascinada pelo Brasil como uma nação do futebol. Quando penso em futebol, o Brasil é um dos primeiros lugares que me vêm à cabeça. A paixão, a cultura, a criatividade, a forma como o futebol existe muito além dos estádios… Parece algo entrelaçado ao cotidiano de uma maneira muito bonita.

Se eu puder sonhar um pouco, adoraria desenvolver algum projeto especial durante a Copa, seja com uma marca, um pop-up, uma exposição, um workshop ou alguma ativação criativa.

Mais do que qualquer coisa, eu gostaria de viver uma Copa do Mundo Feminina no Brasil. Parece ser um daqueles lugares onde o futebol é realmente vivido e respirado, e, para alguém cujo trabalho é tão enraizado na cultura do futebol, isso seria uma enorme fonte de inspiração.

7. Como mulher, você sente que a presença feminina tem crescido não apenas dentro de campo, mas também nos espaços criativos da indústria do esporte?

Com certeza.

Vimos um avanço enorme não apenas dentro de campo, mas também em toda a parte criativa da indústria. Hoje existem muito mais mulheres trabalhando como designers, cineastas, fotógrafas, artistas, diretoras criativas e também em cargos de decisão. Isso é extremamente empolgante porque torna a cultura do futebol mais rica, diversa e representativa das pessoas que realmente amam esse esporte.

Dito isso, ainda existe muito trabalho a ser feito. O futebol continua sendo uma indústria predominantemente masculina em muitos aspectos, e alguns ambientes ainda podem ser desafiadores. Como muitas mulheres da área, já vivi situações em que precisei lidar com egos, preconceitos e dinâmicas bastante desgastantes.

Mas acredito que justamente por isso é tão importante que cada vez mais mulheres ocupem esses espaços e ajudem a transformá-los. Quanto mais perspectivas contribuírem para a cultura do futebol, mais forte e interessante ela será.

8. Você ainda não veio ao Brasil, mas, de certa forma, seu trabalho já esteve por aqui: George Russell e Kimi Antonelli usaram camisetas da Mercedes bordadas com suas flores durante o GP de São Paulo. Além da Fórmula 1, existem outros esportes com os quais você gostaria de trabalhar?

Hahaha, isso foi muito fofo! Eu nunca estive no Brasil, mas fico feliz que minhas peças já tenham chegado até aí.

É bastante surreal quando paro para pensar nisso. Meu trabalho viajou para muitos lugares onde eu mesma nunca estive e alcançou pessoas que jamais imaginei alcançar.

O projeto para o Grande Prêmio de São Paulo foi um ótimo exemplo disso. Foi uma honra criar peças para George Russell e Kimi Antonelli, e ver dois pilotos tão talentosos usando algo que eu fiz foi uma experiência muito especial e humilde ao mesmo tempo.

Curiosamente, neste mês estou trabalhando em uma colaboração em outro esporte, sobre a qual ainda não posso falar. Mas posso dizer que é um esporte que amo há muito tempo. Estou muito animada para finalmente criar dentro desse universo e mal posso esperar para compartilhar quando chegar a hora.

Além disso, o basquete seria um sonho. Existe algo na cultura do basquete — essa relação entre esporte, moda, criatividade e autoexpressão — que parece muito natural para mim.

Mas aprendi a não me limitar. Há alguns anos, jamais imaginei que estaria trabalhando em projetos de Fórmula 1 ou desenhando chuteiras de futebol, e essas acabaram se tornando algumas das experiências mais marcantes da minha carreira. Então, neste momento, parei de tentar prever para onde o meu trabalho vai me levar.

9. Para terminar: existe algo que o futebol e a arte ensinaram a você e que gostaria de ensinar ao mundo?

Que a vida raramente segue o caminho que imaginamos — e tudo bem.

Se tivessem dito à menina que cresceu no Iraque que um dia o futebol a levaria pelo mundo, apresentaria alguns dos seus melhores amigos, moldaria sua carreira e a faria criar para marcas e atletas que ela admirava, eu jamais teria acreditado.

Nada disso fazia parte de um grande plano.

Acho que o futebol e a arte me ensinaram exatamente a mesma lição: não tenha medo de perseguir aquilo que você realmente ama, mesmo que isso não caiba perfeitamente em uma única categoria.

As melhores coisas da minha vida aconteceram quando parei de me preocupar com o que eu “deveria” fazer e comecei a seguir aquilo que realmente me empolgava.

Durante muito tempo, achei que precisava escolher entre diferentes partes de mim: futebol ou criatividade, esporte ou moda, praticidade ou paixão.

Mas os trabalhos mais significativos que criei nasceram justamente quando abracei todas essas partes ao mesmo tempo.

Então, se existe uma mensagem que eu gostaria de deixar, é esta: não deixe que outras pessoas definam como o seu caminho deve ser. O mundo sempre vai tentar colocar as pessoas em categorias.

Às vezes, a coisa mais interessante que você pode fazer é criar uma categoria só sua.





Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

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