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O artesanato indiano enche os olhos. Da estreia de Manish Malhotra ao já veterano Rahul Mishra, a Índia vem conquistando cada vez mais espaço na Semana de Alta-Costura de Paris com uma combinação de luxo, excelência técnica e ancestralidade. Durante décadas, porém, esse savoir-faire permaneceu nos bastidores. Enquanto os aplausos eram direcionados às maisons francesas, muitas das peças celebradas carregavam bordados e técnicas produzidos pelas mãos de artesãos indianos.

Os números ajudam a explicar esse protagonismo crescente. Segundo dados do governo local, a Índia abriga a segunda maior indústria têxtil e de vestuário do mundo, atrás apenas da China. Avaliado em cerca de US$ 179 bilhões, o setor representa aproximadamente 2% do PIB do país, responde por 11% do valor agregado da indústria de transformação e emprega mais de 45 milhões de pessoas, sendo o segundo maior gerador de empregos da Índia.

Mais do que uma potência industrial, o país também é referência em tradição têxtil. A Índia é a maior produtora mundial de algodão, uma das principais produtoras de seda e ocupa posição de destaque nas exportações globais de têxteis e vestuário. Esse cenário é um dos caminhos para entender por que cada vez mais estilistas indianos deixam de ser apenas fornecedores do luxo europeu para ocupar, eles próprios, as passarelas de Paris.

A lista de marcas que trabalham com ateliês indianos é gigantesca: Dior, Hermès, Celine, Chanel, Louis Vuitton, Gucci, Prada, Fendi, Balenciaga e muitas outras. Mas poucas são transparentes sobre essa relação. Em 2023, Maria Grazia Chiuri, então diretora criativa da Dior, foi até Mumbai para celebrar a conexão com o país. Para o desfile realizado na cidade, a estilista encomendou ao ateliê Chanakya um painel que reuniu o trabalho de 320 artesãos e cerca de 200 mil horas de trabalho.

A Hermès é uma das poucas maisons francesas citadas por especialistas por reconhecer publicamente o trabalho de artesãos indianos. Enquanto muitas marcas utilizam bordados produzidos no país sem evidenciar sua origem, a maison chegou a comercializar lenços bordados com a etiqueta "Made in India", em um gesto visto como raro na indústria do luxo.

Antes de a moda indiana conquistar as passarelas de Paris, houve quem garantisse que sua herança artesanal não desaparecesse. No fim da década de 1960, Ritu Kumar iniciou um trabalho de valorização de técnicas têxteis tradicionais que estavam sendo deixadas de lado pela industrialização. Ao trabalhar diretamente com artesãos de diferentes regiões do país, a estilista ajudou a transformar bordados, estampas e tecelagens ancestrais em uma linguagem contemporânea de luxo. Mais do que criar uma marca, Ritu Kumar mudou a forma como a própria Índia enxergava seu patrimônio têxtil, abrindo caminho para que as gerações seguintes encontrassem na tradição um ponto de partida para inovar.

Décadas mais tarde, Sabyasachi Mukherjee levaria esse legado a uma nova escala. Sem nunca desfilar na Semana de Alta-Costura de Paris, o estilista construiu uma das marcas de luxo mais influentes da Índia ao transformar o artesanato local em objeto de desejo internacional. Seu sucesso mostrou que a moda indiana podia disputar espaço no mercado global sem abrir mão de sua identidade cultural e preparou o terreno para que uma nova geração de designers chegasse às passarelas da alta-costura.

Se Sabyasachi consolidou a moda indiana como uma potência global fora do calendário parisiense, Rahul Mishra foi um dos responsáveis por levar esse reconhecimento para dentro da mais prestigiada semana de moda do mundo.

Em janeiro de 2020, algo inédito aconteceu: Rahul Mishra fez sua estreia no calendário oficial da Semana de Alta-Costura de Paris. O designer é conhecido pelos seus bordados tridimensionais de tirar o fôlego, sempre acompanhados de narrativas poéticas, quase espirituais, que têm o saber artesanal indiano e sua cultura como ponto de partida. Mais tarde, em 2021, Vaishali Shadangule fez história ao se tornar a primeira mulher indiana a desfilar na alta-costura parisiense. Seu trabalho se diferencia dos demais porque chama atenção não pelo brilho dos bordados, mas pelas técnicas de tecelagem indianas que transformam seus vestidos em verdadeiras obras de arte.

Já em 2023, foi a vez de Gaurav Gupta se juntar ao seleto grupo com suas criações futuristas combinadas ao luxo indiano. Seus desfiles sempre viralizam pela beleza das esculturas que cria a partir das peças, o que o consolidou como um dos maiores nomes da moda indiana.

Em 2026, foi a vez de Manish Malhotra fazer sua aguardada estreia no calendário oficial da Semana de Alta-Costura de Paris. O designer já era amplamente conhecido por seus figurinos para Bollywood, transformando muitos filmes em verdadeiras vitrines de seu trabalho. Aqui, o glamour ocupa o centro da narrativa, sempre colocando a excelência e a herança artesanal da Índia em evidência. Seu prestígio também se reflete no mercado: em 2023, a Reliance Brands, braço de varejo do conglomerado da família Ambani, adquiriu 40% de sua empresa. A mesma família ficou mundialmente conhecida pelas luxuosas celebrações de casamento que reuniram apresentações de Justin Bieber, Rihanna e Beyoncé, além da presença de Kim e Khloé Kardashian.

É interessante pensar que todos esses nomes apresentam perspectivas diferentes sobre a Índia, mas sempre a colocam no centro de seus trabalhos. Deixam de ocupar um lugar de figurantes das marcas europeias para assumirem o protagonismo, mostrando por que têm seu espaço na semana de moda mais luxuosa do planeta.

Em entrevista ao jornal India's World, um dos designers pioneiros na expansão internacional do país, Tarun Tahiliani traz a ideia de uma "Índia Moderna", onde tradição e contemporaneidade se encontram sem que uma anule a outra, tornando a herança artesanal indiana mais adaptável aos dias atuais:

"Adoro tudo nos tecidos indianos — as cores, os bordados, o artesanato. Mas não acredito que devam existir apenas como trajes ou em roupas que parecem impraticáveis hoje em dia. O desafio é reinterpretar essa herança de uma forma que se adapte à vida contemporânea. Esse diálogo entre tradição e modernidade é constante, e acredito que sempre será."

A estreia de Manish Malhotra e a expectativa constante em torno dos desfiles dos designers indianos provam que existe uma demanda real — tanto da indústria quanto do público — por esse olhar sobre o luxo. Depois de décadas contribuindo para algumas das maiores maisons do mundo nos bastidores, a Índia finalmente ocupa o centro do palco. E, ao que tudo indica, essa história está apenas começando.

Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

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