Sei que na moda somos apaixonados por grandes espetáculos, castings estrelados e, principalmente, pela roupa que toma toda sua atenção. Geralmente, isso acontece pela grandiosidade do desfile ou até mesmo pelo choque daquelas que costumam colocar os pés em um lugar mais controverso. Em um mundo onde “viral” praticamente é sinônimo de sucesso, às vezes, em meio ao silêncio, é bom se perguntar: longe do espetáculo, essa roupa ainda é aplaudida de pé?
Essa é a terceira apresentação de Augusto Paz e, dessa vez, o estilista escolheu criar sem tema. Sempre acredito que essa decisão é corajosa porque, longe de uma história, sua roupa tem que falar por si só, mesmo que ela não diga nada. Ela precisa ser.

Augusto e sua equipe então se dedicaram à técnica, inspirados pela emoção de desafiar o que já sabem da roupa e elevar seu design nos detalhes, na construção, na busca por novos materiais e técnicas artesanais.
O desfile começa com um vestido de pastilhas que parecem pétalas douradas, e o segundo já é um spoiler de tudo que vamos ver pela frente: crochê, tweed e muita alfaiataria. As cores deixam tudo mais divertido, o ponto pipoca de crochê também traz essa aura de liberdade criativa, onde o limite não é a história contada, mas sim a execução de ideias que conversem na construção de uma boa roupa.

Um ponto importante é a estreia dos looks masculinos na passarela, que vem como uma resposta aos clientes que foram responsáveis pela metade do faturamento do ateliê no ano passado. Mesmo não tendo uma história a seguir, sinto que Augusto ama se desafiar e que isso, para ele, é divertido. O primeiro look masculino que entra na passarela é um tweed colorido, quase cropped e com uma calça Aladin. O segundo, uma alfaiataria em tweed azul e verde, que diverte enquanto mostra sua estrutura afiada na passarela.

As aplicações florais também fazem parte dessa dedicação ao processo, colocadas de forma artesanal, formando quase que estampas quando vemos de longe, mas flores gigantes quando olhamos de perto. E aqui, não precisamos nos aproximar dos detalhes para entender o que foi feito. Por mais que eles também sejam encantadores, é uma coleção que se aprecia de longe, mas também faz sentido de perto.

Nunca esqueci quando uma maquiadora me disse que era impossível criar coisas gigantescas e exuberantes quando ainda não se domina o básico. E, quando falamos do básico, não falamos sobre algo pequeno e geral, mas sobre a base de todos os conhecimentos, sobre aperfeiçoar a primeira função da roupa: vestir.

Amamos espetáculos, mas o que pode ser mais espetacular que uma roupa bem feita? Aquela que você olha e percebe o caimento perfeito, que funciona com seus movimentos, que dura por muito tempo porque foi pensada, construída e entregue com excelência em cada detalhe.
Fazer um desfile sem tema é, de fato, corajoso, e não só pelo receio de não ter por onde se guiar e ter que entregar uma roupa perfeita, mas, principalmente, por ter coragem suficiente para se desafiar, onde a única justificativa é entregar a melhor roupa possível.
