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Um dos desfiles que, se eu assistir até hoje, com toda certeza vou chorar, é o de alta-costura inverno 2019 da Valentino. Apresentado nos jardins do Hôtel Salomon de Rothschild, ao som de Aretha Franklin cantando “You Make Me Feel Like a Natural Woman”, aquele momento representou o ápice de um humanismo na moda que parecia escasso. Anok Yai abria o desfile usando um look amarelo solar, coberto por girassóis. No encerramento, após a fila final, Pierpaolo Piccioli era ovacionado enquanto dividia os aplausos com todos os artesãos e costureiras da maison. A emoção daquela cena vinha justamente de uma sensibilidade que sempre se sobressaiu em seu trabalho: a capacidade de transformar roupas em poesia visual e, acima de tudo, em um manifesto de valorização do trabalho humano.

Quando Piccioli assumiu a direção criativa da Balenciaga, revelou que a primeira foto publicada em seu perfil pessoal do Instagram, em 2018, era justamente o icônico vestido de noiva de corte único criado por Cristóbal Balenciaga em 1967. Cinquenta e nove anos depois da criação daquela obra-prima — e oito anos depois daquela publicação despretensiosa —, ele se encontrava apresentando sua primeira coleção de alta-costura para a maison da Avenue George V.

As expectativas eram inevitavelmente altas, afinal, assumir uma marca que, na última década, se tornou um fenômeno cultural sob o comando de Demna Gvasalia não seria uma tarefa simples. Demna reconstruiu a Balenciaga sob a estética do cinismo contemporâneo, da ironia tardo-capitalista e do choque. Mas Piccioli nunca pareceu interessado em disputar esse legado nos mesmos termos. Sem tênis destruídos comercializados a preços astronômicos, sem moletons oversized de estéticas subversivas, sem desfiles na lama ao som de techno industrial, ele só tinha uma coisa a oferecer: a beleza intocada. Sua estreia foi uma confissão aberta de que a emoção e a vulnerabilidade ainda podem ser o maior luxo da alta-costura.

Logo no primeiro look, Anok Yai retorna como a primeira modelo a cruzar a passarela, em um gesto que inevitavelmente remete ao inesquecível inverno de 2019 da Valentino. Desta vez, porém, ela veste uma simples calça chino e uma camiseta branca de corte impecável. O look de abertura é inteligente por dois motivos. Primeiro, dialoga diretamente com a linguagem do guarda-roupa cotidiano que Demna levou para a alta-costura na última década. Segundo, prepara o olhar do espectador para tudo o que vem depois. É um gesto silencioso de respeito ao passado recente da marca, sem abrir mão da própria identidade. Piccioli parece dizer que o cotidiano também pode ser alta-costura.

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Foto: Go Runway

Ao longo da coleção, o exercício analítico de Piccioli sobre os códigos de Cristóbal Balenciaga torna-se evidente. Onde Demna via rigidez e estranheza alienígena nas formas do mestre espanhol, Piccioli enxerga lirismo. As silhuetas casuais introduzidas na era recente continuam presentes, mas agora são filtradas por um olhar profundamente romântico. Onde antes havia crueza urbana, agora há ternura. O desfile progride da sobriedade das alfaiatarias de ombros caídos para vestidos que parecem flutuar, sustentados por estruturas internas invisíveis. Os bordados e texturas revelam centenas de horas de trabalho manual minucioso, devolvendo o protagonismo ao ateliê e afastando a marca da ironia de internet para devolvê-la ao terreno do artesanato puro.

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Foto: Go Runway

Em um dos momentos mais impactantes e cenográficos da apresentação, uma modelo surge coberta por um impressionante véu rosa-choque que evoca de imediato a estética dramática e teatral do figurino de “Confessions II”, da Madonna. A referência pop, quando transposta para o rigor da passarela, traduz perfeitamente o espírito da coleção: mais do que apresentar uma nova direção comercial ou uma quebra radical de paradigma, Piccioli faz uma confissão pública sobre aquilo em que acredita como criador.

Sua Balenciaga não renega o fantasma de Cristóbal, não tenta apagar o impacto cultural de Demna e tampouco se limita a repetir as fórmulas cromáticas da Valentino. Ela apenas revela, sem medo da cafonice do sentimento ou da vulnerabilidade, quem é Pierpaolo Piccioli quando lhe entregam o maior e mais complexo palco da alta-costura global. Onde o mercado esperava o choque, ele entregou o belo. E, no cenário atual da moda, talvez não haja nada mais verdadeiramente subversivo do que isso.

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Foto: Go Runway

Hylentino

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