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Depois do sucesso de "Oppenheimer", que lhe rendeu sete estatuetas do Oscar, Christopher Nolan está de volta com o aguardado "A Odisseia", que chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (16). Seja pelo orçamento astronômico de US$ 250 milhões, pelo elenco estelar que reúne um número quase exagerado de grandes nomes — e que, nas mãos erradas, poderia facilmente se transformar em uma vitrine de egos — ou pelo marketing em torno das câmeras IMAX, um aspecto parece ter ficado em segundo plano durante a divulgação: afinal, é possível condensar um dos poemas mais importantes da história da humanidade em apenas três horas de duração?

Após o logotipo da Universal preencher a tela, o primeiro rosto que surge diante do público é o de Travis Scott — sim, o rapper. No filme, ele interpreta Demódoco, o bardo que canta os feitos de Odisseu diante dos pretendentes de Penélope em Ítaca. Segundo Christopher Nolan, a escolha partiu do paralelo que ele enxerga entre um rapper contemporâneo e um poeta da Antiguidade, ambos responsáveis por transmitir histórias, mitos e memórias por meio da oralidade, e essa decisão, longe de soar como uma simples escalação curiosa, acaba funcionando como um manifesto estético do próprio longa, que desde seus primeiros minutos deixa claro que não pretende reproduzir uma Grécia antiga museificada, mas estabelecer um diálogo constante entre o passado e o presente por meio de pequenos anacronismos que atravessam toda a narrativa.

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Travis Scott em “A Odisseia”. Foto: Universal Pictures

Ainda que tome algumas liberdades em relação ao poema de Homero, Nolan demonstra um respeito incomum pelo material original ao compreender que adaptar não significa ilustrar. A Guerra de Troia, por exemplo, abandona qualquer idealização heroica presente em tantas pinturas neoclássicas para assumir uma dimensão quase documental, marcada pela sujeira, pela fome, pelo cansaço e pela exaustão física e emocional de homens que passaram anos lutando por uma guerra cuja glória jamais compensaria o preço cobrado. Ao deslocar o olhar do heroísmo para as consequências do conflito, o diretor transforma o retorno de Odisseu em algo maior do que uma simples jornada de volta para casa, aproximando o personagem de uma leitura contemporânea sobre os traumas deixados pela guerra, como se a verdadeira batalha começasse justamente quando os combates terminam. Mesmo episódios tradicionalmente mais fantásticos, como a passagem pela ilha de Circe ou o encontro com o ciclope Polifemo, encontram um equilíbrio interessante entre espetáculo e realismo, embora este último acabe se estendendo além do necessário e torne o ritmo da narrativa momentaneamente mais lento.

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Universal Pictures

O elenco, por sua vez, corresponde ao peso dos nomes reunidos, mas a produção pertence, sem qualquer dúvida, a Matt Damon, que entrega um Odisseu de enorme rigor dramático, convencendo tanto pela inteligência estratégica quanto pelo desgaste de um homem consumido pelos anos de guerra, enquanto Tom Holland encontra em Telêmaco uma delicadeza inesperada, fazendo da busca pelo pai muito mais do que uma aventura, mas o retrato de um jovem ainda em formação, cuja inocência transparece em cada olhar antes de ser substituída, pouco a pouco, pela maturidade.

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Se há um aspecto em que Nolan continua inalcançável, contudo, é o domínio técnico. A fotografia impressiona em uma escala difícil de traduzir em palavras, transformando paisagens naturais em imagens que parecem ter sido esculpidas pela própria luz, enquanto o desenho de som, potencializado pelo formato IMAX, faz com que cada batalha, cada onda e cada silêncio tenham peso físico suficiente para envolver completamente o espectador.

É justamente nessa construção que surgem algumas das referências mais interessantes do longa. A reflexão de Penélope sobre o amor, interpretada por Anne Hathaway, inevitavelmente remete às discussões que a própria atriz protagonizou em "Interestelar", também dirigido por Nolan, enquanto o reencontro entre Odisseu e Penélope, quando ele retorna disfarçado e conversa com a esposa sem revelar sua identidade, ecoa de maneira surpreendente o diálogo entre Travis e Jane em "Paris, Texas" (1984), estabelecendo uma ponte sutil entre duas obras separadas por décadas, mas unidas pelo mesmo sentimento de distância, reconhecimento e desejo.

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Christopher Nolan talvez seja um dos poucos diretores contemporâneos para quem não parece existir meio-termo: ou se ama sua filmografia ou se rejeita completamente sua maneira de transformar grandes conceitos em espetáculo cinematográfico. "A Odisseia" dificilmente mudará essa percepção, mas confirma aquilo que seus admiradores esperam há anos. Mesmo com adaptações inevitáveis e algumas escolhas narrativas discutíveis, o longa consegue preservar a força do poema de Homero e encantar inclusive quem entrar na sala de cinema sem conhecer a obra original, enquanto, para os fãs de Nolan, representa mais um título que certamente disputará um lugar entre os melhores filmes de sua carreira.

Hylentino

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