Ao ler no cartaz de “Michael” que o filme é produzido pelo mesmo produtor de “Bohemian Rhapsody”, não dá pra entrar na sala do cinema e esperar muita coisa. E é com essa exata proposta de cinebiografia com roteiro Wikipédia e montagem-karaokê para os fãs cantarem que a cinebiografia do rei do pop estreia oficialmente nos cinemas do país nesta quinta-feira (23), após sessões antecipadas no feriado.
A fórmula é a clássica, e confortável demais dentro disso: começa com a infância, mostrando como o astro era com o Jackson 5, a relação conturbada com o pai, os primeiros sinais de genialidade. O primeiro ato até se sustenta nesse apelo de drama familiar, existe ali um esforço de criar envolvimento e colocar o espectador dentro daquele ambiente, mas isso dura pouco. O filme rapidamente abandona qualquer aprofundamento e passa a correr por uma linha do tempo ilustrada, como se tivesse medo de permanecer tempo demais em qualquer conflito.
E quando isso acontece, o longa assume o que ele realmente quer ser: um grande karaokê. Não existe construção de cena ou progressão dramática, só uma sequência de performances recriadas para ativar reconhecimento imediato. É um filme que pede menos atenção e mais participação do público, e até funciona nesse lugar — a sala canta, reage, vibra — mas isso resolve a experiência coletiva, não o filme. Porque, em vez de tentar entender quem foi Michael Jackson, ele se limita a lembrar o que ele fez.
E quase como um susto mesmo, Jafar Jackson aparece como um Michael adulto com uma caracterização que beira o caricatural. A maquiagem é inconsistente do começo ao fim, os traços ficam artificiais e, em alguns momentos, a impressão se aproxima mais de um quadro do Rodrigo Faro do que de uma construção cinematográfica. Ainda assim, ao longo do filme, Jafar vai encontrando um lugar, ganha naturalidade e acaba convencendo, mais por esforço próprio do que pelo que o filme oferece.

Divulgação/ Universal PIctures
Os problemas técnicos pesam. O CGI é fraco em vários momentos, especialmente em um macaco mal resolvido que aparece e só reforça a sensação de descuido. Nada parece completamente finalizado, e isso é estranho em um filme que depende tanto de construir uma presença tão específica quanto a de Michael.
Os diálogos seguem essa mesma lógica: artificiais, explicativos demais e sempre atravessados por um tom motivacional que não encaixa. Ninguém conversa de fato, todo mundo parece estar discursando, e isso achata qualquer nuance, principalmente quando o roteiro encosta em temas que pediriam mais cuidado, como as limitações de ser um artista negro dentro da indústria ou mesmo a ideia de infância prolongada que acompanha a imagem dele. O filme menciona, mas não desenvolve.
Em certo ponto, a narrativa praticamente desaparece e o filme vira um recorte do processo criativo de “Thriller”, o que deixa claro onde está o interesse do projeto: reverenciar, não investigar. A partir daí, a estrutura se assume como uma cinebiografia de checklist, passando pela “The Victory Tour” e por outros marcos de forma cronológica, organizando tudo sem realmente construir peso dramático.
No meio disso, Colman Domingo é uma pérola. A atuação dele como Joseph Jackson traz presença, traz peso, traz uma consistência que o filme não consegue sustentar sozinho. Em cena, dá para perceber um outro tipo de filme possível, mais interessado em tensão e em relação do que em reprodução de momentos conhecidos. É uma das poucas atuações que realmente convencem aqui, muito mais por causa do próprio Domingo do que pelo material que ele recebe. Indicado duas vezes ao Oscar, ele encontra camadas onde o roteiro não oferece e, por alguns momentos, até disfarça o quanto o texto é frágil.

Divulgação/ Universal Pictures
O filme termina em 1988, em Londres, mas logo é anunciado que terá continuação. O resultado é um filme que funciona como espetáculo para fãs, mas não se sustenta como cinema. Ele depende do reconhecimento, da memória afetiva e da força das músicas para se manter de pé, e isso segura muita coisa. Mas, quando se olha para o que está sendo construído de fato, sobra pouco.
Existe uma diferença entre celebrar e entender, e aqui, ao transformar Michael Jackson em uma sequência de grandes momentos, o filme simplifica tudo que ele foi. E aí não tem muito como fugir: não é um filme à altura do maior artista da história.
