Desde que a Disney passou a apostar em sequências, remakes e live-actions de sucessos dos anos 2000, apoiando-se na nostalgia do público para garantir bilheterias robustas — como em “Lilo & Stitch” e "Divertida-Mente 2" —, o estúdio encontrou uma fórmula segura. “O Diabo Veste Prada 2”, que chega 20 anos após o original, segue essa lógica. Mas, diferente de outros retornos tardios, aqui existe uma pergunta inevitável: essa história ainda precisava ser contada?
Casos como "Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda", lançado 22 anos depois, se sustentam porque partem de um núcleo dramático claro — a família — que naturalmente desperta curiosidade sobre o futuro daqueles personagens. Já a Runway Magazine nunca foi exatamente sobre continuidade, mas sobre um retrato de época. Retomar esse universo, portanto, é menos sobre nostalgia e mais sobre atualização. Chegando aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (30), o filme, sob a continuidade da direção de David Frankel, traz novamente Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci em seus respectivos personagens, mas adaptados a uma linguagem contemporânea.
Apesar de a autora Lauren Weisberger ter escrito uma continuação do livro original em 2013, a nova história não se trata de uma adaptação direta da obra. A principal semelhança entre literatura e cinema é que a continuação carrega um ar mais ficcional, em vez de uma denúncia pessoal, em que a grande temática por trás da moda é o assédio moral de grandes líderes. É justamente esse reposicionamento contemporâneo que guia o filme do começo ao fim.
Andrea Sachs assume o papel de uma renomada jornalista que, um dia, sem mais nem menos, é demitida do jornal em que trabalhava, mas logo em seguida é convidada a voltar para a Runway Magazine com o objetivo de gerir uma crise.
Quando retorna, a poderosa Miranda Priestly continua no cargo de editora-chefe e Nigel Kipling como diretor de arte, mas não da mesma forma que nos anos 2000. Nesse ponto, principalmente para nós que trabalhamos na indústria — especialmente na comunicação de moda —, o filme é tão verossímil ao retratar o que as revistas se tornaram que funciona quase como um documentário. Em uma cena, Nigel conta a Andrea que, antigamente, passava duas semanas na África com Richard Avedon — um dos mais renomados fotógrafos da indústria da moda — para produzir editoriais, enquanto hoje tem sorte quando consegue uma diária de duas horas em um simples estúdio em Nova York.

Foto: 20th Century Studios/PA
Aproveitando o gancho das referências, o roteiro está afiadíssimo, com menções que só quem é da indústria entende, como um artigo de denúncia publicado no BoF (Business of Fashion), uma temida crítica de Vanessa Friedman, crítica de moda do New York Times, ou o desfile real de verão 2026 da Dolce & Gabbana, que aparece no filme.
E tudo isso, somado ao figurino — como Miranda usando uma Andiamo da Bottega Veneta ou Emily em um look completo da Dior —, reforça o trabalho da figurinista Molly Rogers, que foi assistente de Patricia Field no primeiro filme, e traz de volta a essência de moda que moldou o clássico dos anos 2000, agora adaptada ao que a moda representa hoje, sem casacos de pele na redação, por exemplo. Easter eggs do primeiro também aparecem de forma pontual, sem se dispersarem na trama. Nesse quesito, para quem vai ao cinema apenas para ver moda, pode comprar o ingresso tranquilamente, porque o filme cumpre — e vai além.
Meryl Streep, com uma performance arrebatadora — como sempre —, apresenta, diferentemente da Miranda autoritária do primeiro filme, uma personagem que precisou se readequar ao trabalho, até porque hoje seria inadmissível aquela postura dos anos 2000. Ainda assim, ela não deixa de ser a figura intimidadora de antes, mas agora mais contida. Sua assistente pessoal é Amari, interpretada por Simone Ashley, mas o papel de sua “nova Emily” se aproxima mais de policiá-la sobre o que deve ou não ser dito do que de ser uma serviçal que vive em função dela.

Foto: 20th Century Studios/PA
E, em tempos em que se discute a venda da Vogue para Jeff Bezos, o declínio do impresso e a ascensão do jornalismo digital, esses temas atravessam o grande pano de fundo do filme com segurança e profundidade. A crise da Runway não é apenas um dispositivo narrativo, mas um reflexo direto das transformações estruturais da indústria editorial: cortes, perda de relevância cultural e a urgência em dialogar com novas plataformas e novos públicos. Nesse sentido, o roteiro acerta ao tratar essas mudanças sem nostalgia excessiva, entendendo que a moda — e, principalmente, o jornalismo de moda — já não opera sob as mesmas lógicas dos anos 2000.
Um problema do filme é o arco dramático que ele cria de forma superficial ao tentar desenvolver a vida amorosa de Andrea neste novo capítulo. Sem construção consistente ou impacto real na narrativa, esse núcleo soa deslocado, como se fosse uma exigência protocolar de roteiro para humanizar a personagem. No entanto, o efeito é o oposto: em vez de aprofundá-la, acaba enfraquecendo sua trajetória, já que a Andrea jornalista, bem posicionada e inserida nesse novo ecossistema da comunicação, é muito mais interessante do que esse retorno pouco elaborado ao campo romântico.
Emily, agora como PR da Dior, também sofre desse mesmo problema de desenvolvimento tangenciado. Apesar de seu reposicionamento profissional ser promissor, o filme não explora plenamente as camadas dessa nova fase, utilizando a personagem mais como suporte para a engrenagem da trama do que como alguém com conflitos próprios. Falta densidade — e, principalmente, tempo de tela — para que Emily deixe de ser apenas uma extensão nostálgica do primeiro filme e se consolide como uma personagem relevante dentro dessa nova configuração da indústria.

Foto: 20th Century Studios/PA
“O Diabo Veste Prada 2” funciona melhor quando olha para frente do que quando tenta revisitar o que já foi. Ao compreender com precisão as transformações da indústria da moda e do jornalismo, o filme se sustenta como um retrato atual e, em muitos momentos, quase íntimo desse novo cenário. Ainda assim, tropeça ao recorrer a estruturas narrativas ultrapassadas — especialmente na tentativa de reinscrever conflitos pessoais que já não têm o mesmo peso. Entre acertos e deslizes, a sequência prova que a moda mudou, o mercado mudou e até Miranda mudou, mas o cinema, às vezes, ainda insiste em repetir fórmulas que já não vestem tão bem quanto antes.
