Vinte e oito anos depois do primeiro filme, as bruxas Sally e Gillian retornam em “Da Magia à Sedução 2”, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (10). Com Sandra Bullock e Nicole Kidman de volta em seus respectivos papéis, mas, desta vez, sob a direção de Susanne Bier, que já havia trabalhado com Bullock em “Bird Box” (2018), a premissa da continuação continua girando em torno da maldição que acompanha as mulheres Owens e faz com que os homens por quem elas se apaixonam tenham finais trágicos. E talvez o problema já comece justamente na forma como o filme tenta explicar o que aconteceu com essas mulheres quase três décadas depois.
Ao contrário de sequências recentes de filmes dos anos 2000, como “Sexta-Feira Muito Louca” e “O Diabo Veste Prada”, que conseguiram reposicionar suas personagens em um contexto contemporâneo sem abandonar aquilo que as tornou conhecidas, “Da Magia à Sedução 2” parece preso demais ao próprio passado. Sally e Gillian continuam praticamente no mesmo lugar emocional, enquanto a história apresenta uma nova geração da família Owens, formada pelas filhas adultas de Sally, Antonia e Kylie, que agora estão na faculdade.
A ideia de acompanhar as filhas poderia ser justamente o caminho para atualizar o universo das Owens, mas o roteiro rapidamente transforma Kylie no centro de uma nova história sobre a maldição. Quando o romance da personagem com Gideon, um colega da faculdade, começa a repetir os mesmos padrões que assombraram as mulheres da família, ela parte para a Inglaterra em busca de respostas, obrigando Sally e Gillian a correrem atrás dela. O problema é que a narrativa parece sempre estar procurando o próximo acontecimento, sem nunca encontrar exatamente o que pretende dizer com ele.
Com mais de duas horas de duração, o filme é arrastado em vários momentos e sofre de uma estrutura que demora a engrenar. Há uma quantidade considerável de personagens, informações sobre a história da família, novos elementos mágicos e subtramas que entram e saem da narrativa sem receber o desenvolvimento necessário. E, apesar de acumular acontecimentos, “Da Magia à Sedução 2” raramente consegue produzir uma verdadeira sensação de surpresa. O problema não é exatamente saber o que vai acontecer, mas a demora para que aquilo que já imaginávamos finalmente aconteça.
Ainda assim, existe algo curiosamente agradável na maneira como o filme coloca essas personagens em cena. Os diálogos entre Sally e Gillian têm uma naturalidade que muitas continuações nostálgicas não conseguem reproduzir. Há uma sensação de que Sandra Bullock e Nicole Kidman não estão simplesmente repetindo falas escritas para personagens que interpretaram em 1998, mas retomando uma dinâmica que já conhecem intimamente. A maneira como elas interrompem uma à outra, falam ao mesmo tempo, mudam de assunto e reagem aos acontecimentos dá ao filme alguns de seus momentos mais vivos.
Essa naturalidade também está na própria maneira como as atrizes falam. Bullock recupera a neurose e o humor de Sally sem transformar a personagem em uma caricatura, enquanto Kidman parece completamente confortável com o exagero de Gillian. É justamente quando o filme deixa as duas conversarem, discutirem ou simplesmente ocuparem o mesmo espaço que “Da Magia à Sedução 2” mais se aproxima daquilo que fez o primeiro filme ganhar uma segunda vida como clássico cult. A química entre as duas continua sendo inegável.
O problema é que o roteiro parece não confiar nisso. Em vez de permitir que a relação entre as irmãs seja suficiente para conduzir a história, “Da Magia à Sedução 2” tenta constantemente aumentar a escala da mitologia, introduzir novos mistérios e recuperar momentos conhecidos do primeiro filme. O resultado é uma continuação que consegue ser nostálgica e, ao mesmo tempo, pouco familiar.
Também existe uma diferença importante em relação ao primeiro filme. “Da Magia à Sedução” funcionava melhor quando a fantasia estava ligada a conflitos bastante concretos, especialmente à violência doméstica sofrida por Gillian. Na continuação, a magia ocupa muito mais espaço e, com isso, parte da dimensão humana que dava peso à história original acaba diluída.
É justamente aí que a previsibilidade pesa. Mesmo quando o filme apresenta novos personagens, novos conflitos e uma nova geração de mulheres Owens, é difícil sentir que existe um risco real na narrativa. Os acontecimentos seguem caminhos relativamente óbvios e algumas revelações parecem mais servir para prolongar a história do que para transformá-la. O filme demora para chegar ao ponto e, quando chega, nem sempre oferece uma recompensa proporcional à espera.
Por outro lado, existe uma honestidade no reencontro dessas mulheres. Sandra Bullock e Nicole Kidman continuam sendo capazes de produzir uma espécie de conforto imediato, e é difícil não sorrir quando o filme recupera alguns dos elementos que transformaram o original em um fenômeno cult, como as margaritas da meia-noite e a relação quase caótica entre as mulheres da família.
“Da Magia à Sedução 2” não é exatamente uma continuação necessária, e talvez essa seja sua maior fragilidade. O filme parece existir porque Hollywood descobriu que personagens queridas podem retornar décadas depois, mas não encontra uma razão narrativa tão forte quanto a razão afetiva que trouxe Bullock e Kidman de volta. A dupla ainda funciona, a casa ainda tem charme, as bruxas continuam interessantes e a ideia de que a força das Owens está na relação entre elas permanece intacta. O que falta é uma história à altura dessas personagens.
