Em Berlim, baladas exclusivíssimas como a Berghain, Tresor, KitKatClub e Sisyphos reúnem multidões aos fins de semana em filas normalmente quilométricas na tentativa de atravessar a porta e viver uma das noites mais inesquecíveis de suas vidas. Para muitos frequentadores, especialmente os próprios moradores da capital alemã, a experiência é quase ritualística. E, no quesito estilo, não há muito segredo: quanto mais despretensioso, melhor. A ideia é que os türsteher, os seletores de porta responsáveis por decidir quem entra, percebam que o indivíduo foi ali para viver a música techno, e não para performar um personagem.
A estética funcional ligada à cultura techno nasce diretamente das pistas de dança e dos ambientes industriais onde esse movimento se consolidou, especialmente em cidades como Berlim. Diferente da lógica tradicional da moda voltada apenas para ornamentação, essas roupas priorizam mobilidade, conforto e resistência para longas horas em clubes, galpões e raves. Peças oversized, tecidos tecnológicos, jaquetas utilitárias, botas pesadas, óculos escuros, preto predominante e elementos esportivos passaram a compor um visual que mistura anonimato, proteção e expressão individual. Ao longo dos anos, essa linguagem ultrapassou o universo underground e passou a influenciar diretamente o mercado de luxo, aparecendo nas coleções de marcas que transformaram o imaginário clubber em produto de moda contemporânea.
Automaticamente, quando pensamos nesse universo, é difícil não associá-lo ao trabalho de Demna. Durante seus nove anos na Balenciaga, o designer apresentou ao grande público fragmentos da cena clubber europeia através de suas criações, atravessando o imaginário até mesmo de quem nunca viveu esse universo. Nascido e criado na Geórgia soviética, Demna cresceu em meio ao colapso da União Soviética e à abertura cultural do Leste Europeu nos anos 1990. Em entrevistas, o estilista já contou que foi criado em uma realidade privada de referências ocidentais, até que, com a queda do regime soviético, houve uma “explosão” de novas influências culturais, da Vogue ao McDonald’s.
Em 2000, sua família se mudou para Düsseldorf, na Alemanha, período que o próprio designer descreve como decisivo para entender o que realmente queria fazer. Foi ali, em contato com a efervescência cultural europeia e com a cena noturna do continente, que Demna passou a desenvolver uma relação mais próxima com a música eletrônica e com a cultura rave que atravessaria sua visão criativa anos depois.

Balenciaga Verão 2022
A atmosfera industrial dos clubes de Berlim, o anonimato das pistas de dança, os corpos vestidos de maneira funcional e a energia crua do techno se transformariam futuramente em elementos centrais da linguagem visual da Vetements, marca fundada por ele em 2014 e onde permaneceu por cinco anos antes de consolidar essa estética em escala global na Balenciaga.
Dos desfiles marcados por silhuetas largas, propositalmente despretensiosas e, muitas vezes, com aparência desgastada e quase anti-luxo, às apresentações embaladas por trilhas sonoras intensas de techno industrial, a influência da cultura clubber sempre esteve presente no trabalho de Demna. Grande parte dessa atmosfera sonora é construída por seu marido, BFRND, nome artístico de Loïk Gomez, DJ de techno e produtor musical francês que foi responsável pelas trilhas dos desfiles da Balenciaga desde 2017 e, agora, da Gucci.
Os acessórios também ajudam a construir esse imaginário. Entre eles, os óculos futuristas e estreitos que aparecem com frequência nas coleções de Demna talvez sejam um dos elementos mais associados à estética rave e ao techno berlinense. Muitas vezes espelhados, escuros ou com aparência quase cyberpunk, os modelos reforçam a ideia de anonimato, distanciamento e identidade performática que atravessa tanto a cena clubber quanto o trabalho do estilista.

Kim Kardashian usando óculos da Balenciaga. Foto: Frazer Harrison/Getty Images
Já com Alessandro Michele, a relação com o techno acontece de maneira diferente. Fã declarado do gênero, o designer frequentemente é visto usando o boné “Techno Is My Boyfriend”, transformado quase em uma assinatura pessoal. Desde sua chegada à Valentino, Michele tem aproximado a maison de uma atmosfera mais noturna e clubber, seja através das trilhas sonoras marcadas por techno industrial, seja pelos acessórios maximalistas e pelos óculos que remetem diretamente às pistas de dança europeias.
Essa aproximação ficou ainda mais evidente no desfile de inverno 2025 da marca, quando o estilista recriou o banheiro de uma balada como cenário da apresentação. Enquanto uma trilha intensa de techno ecoava pelo espaço, modelos atravessavam cabines e espelhos em uma reflexão sobre intimidade, exposição e os comportamentos que surgem nos espaços noturnos. Michele parecia interessado em transformar o próprio desfile em uma experiência de balada.
Um outro nome importante dentro dessa conversa é Raf Simons. Antes mesmo de Demna transformar a estética pós-soviética e rave em fenômeno global na Balenciaga, Raf já olhava para a juventude clubber europeia dos anos 1990 como objeto central de suas coleções. Crescido na Bélgica, o estilista viveu de perto o auge da cultura gabber e das raves que atravessavam cidades como Antuérpia e Rotterdam, movimentos marcados por música eletrônica pesada, pistas clandestinas e jovens vestidos de maneira quase agressivamente funcional.
Essa influência apareceu diretamente em suas coleções dos anos 1990 e início dos anos 2000, através de moletons oversized, parkas, alfaiataria rígida e silhuetas largas que remetiam muito mais aos frequentadores de clubes underground do que ao luxo tradicional da época. Diferente da sensualidade explícita da moda dos anos 1990, Raf enxergava a juventude rave de maneira melancólica, quase alienada, transformando a solidão urbana e a cultura noturna em linguagem estética.

Raf Simons Inverno 2001
Outro nome importante dentro dessa relação entre moda e cultura noturna é Hedi Slimane. Em 2003, o estilista lançou o livro fotográfico “Berlin”, um registro documental da vida noturna da capital alemã no início dos anos 2000. Em preto e branco, Slimane fotografou frequentadores de clubes, pistas de dança, corpos exaustos, fumaça, luzes estouradas e a atmosfera crua da cena underground berlinense, reforçando sua fascinação pela juventude, pela música e pelos excessos da noite.
O livro ajudou a consolidar a imagem de Berlim como um dos grandes centros culturais da música eletrônica e da moda contemporânea. Essa mesma sensibilidade atravessaria seu trabalho anos depois, tanto na fotografia quanto nas coleções que desenvolveu na Dior, Saint Laurent e, mais recentemente, na Celine. Silhuetas extremamente magras, jaquetas de couro, skinny jeans, flashes estourados e uma estética que parecia saída diretamente de um after se tornaram marcas registradas de sua linguagem criativa, sempre muito conectada à juventude, à música e à vida noturna.

Celine Homme Inverno 2023
Já Rick Owens se aproxima do techno por um caminho mais sombrio e industrial. Embora o designer raramente fale diretamente sobre rave, seus desfiles frequentemente evocam a atmosfera de galpões industriais e clubes underground, especialmente através das trilhas sonoras repetitivas, das luzes escuras e das silhuetas quase pós-humanas. O preto absoluto, os óculos escuros, o couro e as proporções dramáticas ajudaram a consolidar uma linguagem muito próxima da cena techno europeia dos anos 2000.
Dentro do contexto brasileiro, Alexandre Herchcovitch também pode ser visto como um designer atravessado pela cultura clubber dos anos 1990. Surgindo em meio à cena underground de São Paulo, o estilista construiu sua identidade estética muito próxima da noite paulistana, especialmente dos clubes frequentados por públicos alternativos, queer e ligados à música eletrônica.
Muito antes da moda de luxo internacional transformar a estética rave em tendência, Herchcovitch já apresentava referências fetichistas, óculos estreitos, vinil, caveiras, maquiagem carregada e silhuetas que dialogavam diretamente com o imaginário das pistas de dança. Seus desfiles frequentemente carregavam a energia crua e provocativa da vida noturna, aproximando moda, performance e subcultura de maneira semelhante ao que designers europeus fariam anos depois.
A Forca Studio também surge como um reflexo direto da cultura clubber e techno paulistana. Fundada por Vivi Rivaben e Silvio De Marchi, a marca nasceu da cena underground de São Paulo e transformou referências de galpões industriais, esportes radicais e da vida noturna em uma estética utilitária, sombria e futurista.
Hoje, muito do que entendemos como moda contemporânea, dos óculos estreitos às silhuetas oversized, do preto minimalista às referências utilitárias e industriais, nasceu justamente de espaços que, por muito tempo, foram vistos como marginais. Clubes underground, galpões improvisados, pistas clandestinas e comunidades frequentemente atravessadas por corpos dissidentes ajudaram a construir uma linguagem visual que, décadas depois, seria absorvida pelo luxo. Enquanto muitos consumidores ainda enxergam a cultura techno e clubber como algo distante ou até marginalizado, talvez não percebam que boa parte das referências presentes nas roupas que consomem hoje nasceram exatamente ali: no escuro das pistas de dança.
