Quando a gente sai da bolha da indústria e encosta no mundo real, aparece um abismo difícil de ignorar: o público brasileiro ainda desdenha da própria moda. Existe um desconhecimento quase estrutural das marcas e das histórias que constroem esse mercado. Pagar oito mil reais em uma bolsa feita no Brasil soa absurdo; pagar o mesmo valor em uma peça “supostamente europeia” vira símbolo de status. E isso não nasce do nada. É um discurso alimentado temporada após temporada por conteúdos tendenciosos que reforçam a ideia de que o luxo legítimo sempre vem de fora.
A primeira edição do Rio Fashion Week chegou ao fim, mas alguns vícios da São Paulo Fashion Week reapareceram na capital carioca. E, mais uma vez, o bode expiatório foi o argumento raso que insiste em voltar: influenciadores na passarela. Um debate fácil, que viraliza rápido e desvia o olhar do que realmente importa.
A vítima da vez foi justamente uma das marcas mais tradicionais do line-up: a Blue Man. Sob o comando de Sharon e Thomaz Azulay, a grife fundada por David Azulay nos anos 1970, responsável pelo icônico biquíni jeans, apresentou um Rio de Janeiro plural, povoado por personagens reais da cidade. Laurinha do Camarão, Helo Pinheiro, Deborah Secco e até um vendedor de mate dividiram a passarela. Ainda assim, o que repercutiu foram sete segundos: o casal de criadores de conteúdo Geovanna Alencar e Arthur Lima dançando o “passinho do Jamal”. Bastou isso para reacender comparações com desfiles dos anos 2000 e discursos apressados sobre a “falta de seriedade” da moda nacional. Curioso, considerando que a Blue Man foi uma das poucas a escapar do imaginário óbvio da Zona Sul e, mesmo assim, foi a mais atacada.

Geovanna Alencar e Arthur Lima na passarela da Blue Man. Foto: Agência Fotosite
Talvez falte repertório. Talvez falte disposição para entender a narrativa proposta por cada desfile. Porque a crítica de que “lugar de modelo é na passarela” ignora não só a história da própria moda, como o que está acontecendo agora, fora daqui. Em Paris, Miuccia Prada escala celebridades, clientes e não-modelos para os desfiles da Miu Miu, reforçando uma ideia de realidade e identificação. Ninguém parece incomodado.
E se a questão fosse, de fato, exaltar “modelos de verdade”, o desfile de Lenny Niemeyer, com Fernanda Tavares, Isabeli Fontana e Barbara Fialho, teria gerado o mesmo barulho, não? Mas não gerou. Porque o problema nunca foi exatamente esse.

Isabeli Fontana desfilando para Lenny Niemeyer. Foto: Agência Fotosite
Enquanto o tribunal da internet se ocupa dessas pautas superficiais, os problemas estruturais seguem intactos. A organização da IMM repete uma lógica centralizadora: castings feitos majoritariamente em São Paulo, concentrados nas mãos de poucos diretores de casting, que acabam monopolizando as escolhas e repetindo os mesmos modelos em praticamente todos os desfiles, sem abrir espaço para novos nomes, inclusive do próprio Rio de Janeiro. Nos bastidores, a realidade era outra. Modelos que acordavam cedo para provas de roupa e voltavam à noite apenas com o café da manhã no estômago, porque, pasmem, muitos não conseguiam comer no evento e até mesmo eram impedidos de acessar o catering dos desfiles. Teve gente pagando transporte do próprio bolso, lidando com mudanças constantes de informação e uma desorganização que se acumulava a cada dia.
E nem a vista bonita do Pier Mauá conseguiu disfarçar o óbvio: falta estrutura, falta cuidado e falta coerência entre o discurso e a prática. No fim, discutir influenciador na passarela parece mais confortável do que encarar o que realmente precisa ser revisto.
No fundo, o que está em jogo não é quem pisa na passarela, mas quem define as regras do jogo. Porque enquanto a discussão continuar rasa, a moda brasileira segue sendo julgada pelos motivos errados e, pior, deixando de resolver aquilo que realmente impediria ela de ocupar o lugar que já deveria ser seu.
