Apresentar a primeira coleção de alta-costura da carreira em uma maison que criou o New Look está longe de ser tarefa fácil. Ainda assim, com coragem, Jonathan Anderson debutou na alta-costura da Dior. O ponto de partida veio de um buquê de ciclâmen que John Galliano enviou a Anderson antes de sua estreia no feminino da Dior. Ao mesclar referências teatrais e orientais do inglês que comandou a casa por 15 anos com ecos do Raf Simons de 2012, Anderson apresentou sua primeira coleção de alta-costura para a maison.
Diferente dos dois desfiles masculinos já apresentados, nos quais é possível identificar coerência visual, o mesmo problema visto em sua estreia no prêt-à-porter feminino se repete: um emaranhado de ideias. O primeiro look parecia anunciar uma investigação da natureza: um vestido preto plissado balonê, uma bolsa de franjas verdes que remetia à grama e um ramalhete de ciclâmen aplicado ao ombro. Confuso na descrição, e também no visual. Quando as referências botânicas se afastam do literal, como nos looks 8 e 9, em que babados desconstruídos criam vestidos curtos que remetem a um botão de flor prestes a se abrir, a coleção começa instigar, mas, no conjunto, parecia improvisada.
A diferença entre ser conceitual ou tentar parecer conceitual é que nas coleções de Galliano (principal inspiração da coleção), as roupas pareciam que iam ganhar o Oscar de Melhor Figurino de um filme ambientado no século XIX, ou que saíram da Ópera de Pequim. Já o que vimos hoje era como uma brincadeira de criança: tecidos variados enrolados em uma Barbie para brincar de estilista, finalizados com flores arrancadas do jardim e presas ao cabelo.
Em entrevista ao The Guardian, Anderson afirmou: “Todo mundo quer que os estilistas definam a marca imediatamente. Mas a Dior é gigantesca. Se eu a definisse agora, e tudo fosse perfeito, você nunca mais iria aos desfiles, porque não haveria nada para ver. Tem que ser sobre o processo criativo.” Talvez seja justamente por ainda não poder — ou não conseguir — definir a Dior que recorrer a tantas referências acabe mais confundindo do que revelando um caminho. Resta saber se, no futuro, esse excesso encontrará edição.
