Com um teaser recriando uma cena do filme “Ladrão de Casaca” (1955), de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly dirigindo um carro, a Dior dava pistas do primeiro desfile Cruise de Jonathan Anderson à frente da grife francesa, apresentado diretamente de Los Angeles.
Nos últimos anos, a cidade foi palco, por exemplo, do Cruise da Chanel, em 2023, quando Virginie Viard apresentou a coleção diretamente dos estúdios da Paramount, explorando um imaginário cinematográfico dos anos 1980; Alessandro Michele, em 2021, apresentou o verão 2022 da Gucci diretamente da Hollywood Boulevard, trazendo o glamour da old Hollywood que atravessou o estilo de ícones do cinema; e, em 2019, nos estúdios da Universal, Jeremy Scott apresentou o resort da Moschino, inspirado em clássicos filmes de terror. Em todas as coleções citadas, as roupas estavam à altura do glamour hollywoodiano e do imaginário que popularmente atrelamos ao cinema. Mas, no caso de Anderson em sua nova coleção para a Dior, as referências foram, diria, mais sutis.
Christian Dior assinou figurinos de alguns filmes nas décadas de 1940 e 1950, como “Le Lit à Colonnes” (1942) e “Terminal Station”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de 1955 pelos figurinos. Jonathan Anderson também tem uma relação com o figurino, já que virou colaborador frequente dos filmes de Luca Guadagnino desde “Rivais” (2024) — que, particularmente, tem um dos meus figurinos favoritos do cinema recente. Mas o ponto de partida da coleção veio com dois filmes de 1950: “As Crianças Terríveis”, de Jean-Pierre Melville, e “Pavor nos Bastidores”, de Hitchcock, ambos com figurinos assinados por Dior. A locação da apresentação? O Museu de Arte do Condado de Los Angeles, decorado com carros americanos vintage ao pôr do sol californiano, mas iluminado por uma luz fria que trazia o suspense desse filme escrito e dirigido por Anderson. Até aqui, todas as referências criavam o tesão e a emoção de ver o que seria apresentado, ainda somadas a outros elementos, como um outdoor do desfile igual aos outdoors de filmes que decoram Los Angeles e um release escrito em formato de roteiro de cinema. Até que o desfile começa… e a expectativa é quebrada.

Foto: Daniel Cole/Reuters
O primeiro look, um vestido plissado amarelo-manteiga que Sabrina Carpenter havia antecipado quando chegou ao desfile, vinha adornado de flores, seguido por uma versão roxa e depois outra em preto e branco. Até aí, o primor havia sido cumprido. Existia uma elegância silenciosa, quase como os figurinos de uma protagonista hitchcockiana antes do desastre acontecer. Mas então a casualidade invade a passarela. Jeans rasgados surgem combinados com inúmeras versões da jaqueta Bar, principalmente em lã, evocando a alfaiataria masculina dos anos 1950 e os filmes com figurinos assinados por Dior que inspiraram a coleção. Só que, em vez de existir um contraste interessante entre o glamour e o banal, muitas vezes parecia que as ideias não conseguiam coexistir na mesma narrativa.


Em uma alta gama de estampas e aplicações, as comparações com a Chanel de Matthieu Blazy rapidamente tomaram conta dos comentários sobre a coleção, ainda mais nas recentes discussões envolvendo “cópia” no jornalismo de moda. E talvez isso aconteça porque, em alguns momentos, Jonathan parece mais interessado em tensionar códigos já existentes do que realmente transformá-los em algo novo dentro da Dior. Existe um refinamento técnico evidente, mas faltava uma imagem forte o suficiente para fazer tudo aquilo pertencer ao mesmo universo.

Alguns vestidos, isoladamente, evocavam o glamour hollywoodiano esperado — daqueles que você imagina descendo a escadaria de um cinema na Sunset Boulevard em 1956. Mas outros looks empobreciam a coleção e quebravam completamente a fantasia criada até então. O desfile saía de um noir dos anos 1950 para algo que lembrava um curta-metragem universitário tentando recriar essa estética sem orçamento suficiente para sustentá-la.
O primeiro look masculino aparecia, e um terno de cristais com capa e chapéu de Philip Treacy finalmente trazia o ar mais pop que eu esperava da coleção. Era, talvez, o momento em que Jonathan Anderson parecia mais confortável dentro da própria ideia de espetáculo hollywoodiano.

Obras de Edward Ruscha viravam estampas de camisas, trazendo um grafismo — que sempre funciona em coleções que pretendem ser vendíveis — e combinavam com o humor das bolsas: uma Saddle inspirada em um Cadillac e, principalmente, a tote escrita “No Dior, No Dietrich”, frase dita por Marlene Dietrich para Alfred Hitchcock antes de filmar “Pavor nos Bastidores” (1950), exigindo vestir Christian Dior. Ali, a coleção finalmente parecia entender que Hollywood também é excesso, ironia e construção de mito.

Mas, no fim, tudo começava a ficar emaranhado. O styling pesava mais do que devia, como se cada referência precisasse ser explicada ao mesmo tempo. E talvez esse tenha sido o principal problema da coleção: Jonathan Anderson construiu uma atmosfera incrível para o desfile, mas as roupas nem sempre conseguiam sustentar a grandiosidade da narrativa criada antes delas entrarem na passarela.
A mistura de looks masculinos e femininos em uma coleção provou algo que eu já havia observado em críticas anteriores: desde a estreia masculina, Anderson conseguiu definir com clareza a personalidade do seu homem Dior, e, a cada coleção, tudo parece mais irretocável. Existe desejo, coerência e, principalmente, identidade. Mas sua mulher ainda parece estar em processo de descoberta, como alguém fazendo consultorias de estilo para entender quem quer ser.
Uma coleção inspirada na Hollywood dos anos 1950 também exigia uma construção de imagem que se tornasse memorável. Faltou uma beleza que fizesse você acreditar que aquelas modelos transitando pelo LACMA eram personagens de um filme de Hitchcock que escaparam da tela. E, para isso, valia tudo: um cabelo glamouroso feito de bobs, sobrancelhas finas desenhadas a lápis, um batom vermelho. Faltou entender que, naquela Hollywood imaginada por Jonathan Anderson, a fantasia precisava existir até o último detalhe, e não apenas no release.
