Um garoto de vinte e poucos anos entra em um antiquário em Paris e encontra vestidos de baile dos anos 1920 e xales Art Déco da mesma década. Ele decide comprá-los. Na mesma rua, entra em um brechó e encontra roupas dos anos 2000. Escolhe um jeans skinny de Hedi Slimane para a Dior. Quase saindo da loja, vê ombreiras com franjas metálicas e colares de pedra. Volta ao caixa para levar também os acessórios. Sexta-feira à noite chega, e o compromisso é encontrar os amigos no 11º arrondissement para beber cerveja em algum bar alternativo e depois ir a um show de rock ou a uma festa techno no mesmo bairro.
Em casa, ele pega o vestido dos anos 1920, corta e transforma em uma regata. As ombreiras são coladas em uma camisa polo. Os xales são costurados em um blazer. Essa pequena história talvez seja a forma mais simples de sintetizar o que foi a coleção masculina de inverno 2026 de Jonathan Anderson para a Dior.
As referências de época trazidas por Anderson se cruzam de maneira livre e intuitiva, e é a partir desse cruzamento que começamos a entender sua visão para a Dior: ressignificar, e não criar.
O desfile se inicia ao som de “Alesis”, do cantor Mk.gee, um indie rock experimental que define bem o tom da coleção. O primeiro look apresenta uma regata roxa que é, na verdade, uma referência direta a um vestido de seda de Paul Poiret do início dos anos 1920. O cabelo assinado por Guido Palau assume um espírito punk, reforçado por perucas em amarelo-ovo que simbolizam esse mood.
As referências aos anos 1920 reaparecem em xales e batas inspiradas em Poiret, enquanto a silhueta skinny, as lavagens típicas dos anos 2000 e o espírito rock apontam para Hedi Slimane. Se a coleção se propõe a discutir como a moda feminina influencia a moda masculina, Slimane surge como um dos principais nomes dessa disrupção de gênero.
Reinterpretações da Bar Jacket aparecem em casaquetos de pied-de-poule e em jaquetas jeans. Suéteres de tricô com lurex adicionam brilho à passarela. Anderson reforça que ser um garoto Dior não é sobre comprar Dior, mas sobre construir estilo e personalidade. Um começo que carrega sensação de frescura e desejo por mais.
