Exatamente um ano após o louvável début de Jonathan Anderson na Dior, quando assumiu a casa apresentando sua primeira coleção masculina para a grife francesa, já é possível compreender os rumos de seu trabalho. E, até aqui, sua atuação no masculino parece muito mais interessante e coerente do que aquilo que vem desenvolvendo no feminino. Neste terceiro desfile masculino, vemos uma assinatura cada vez mais definida, construída na intersecção entre referências históricas e a contemporaneidade de um jovem francês cool.
Depois de um verão que parecia vestir um príncipe que fugiu do Palácio de Buckingham para passar a noite em uma festa no Marais; de um pré-inverno fotografado na antiga residência de Charles Baudelaire; e de um inverno que resgatava peças “garimpadas” do universo de Paul Poiret, o verão 2027 foi apresentado no Museu Nissim de Camondo, antiga residência do banqueiro e colecionador de arte Moïse de Camondo.
Anderson, ele próprio um ávido colecionador de arte, encomendou ao artista Giangiacomo Rossetti uma série de retratos dos modelos vestindo os looks da coleção, ampliando essa atmosfera de arte, memória e literatura clássica que vem definindo sua Dior masculina e que, aos poucos, se consolida como uma linguagem própria.
O primeiro modelo surge caminhando pelos corredores do museu usando um blazer transpassado de organza com risca de giz. Nas mãos, um celular que parecia um antigo iPhone 4. Ao conectá-lo a um cabo auxiliar, a música eletrônica começa a reverberar pelos salões históricos da residência. Em poucos segundos, Anderson estabelece o eixo central da coleção: o encontro entre passado e presente, entre o patrimônio e a cultura pop, entre a tradição aristocrática e a juventude contemporânea.

Os ternos de organza transparentes pareciam partir de uma pergunta simples: como continuar usando alfaiataria em um verão que já não se comporta como verão? Em uma temporada marcada por temperaturas que encostaram nos 40°C em Paris — e que fizeram a Dior antecipar seu desfile das 14h30 para as 9h da manhã — Anderson propõe uma alfaiataria quase fantasmagórica, tão leve que parece estar evaporando junto com as estações do ano.
Se os ternos pertenciam ao dia, as calças e bermudas metálicas pertenciam à noite. O brilho, que também apareceu na Saint Laurent poucos dias antes, surgia em superfícies espelhadas, tricôs cobertos de glitter e peças que pareciam feitas para refletir as luzes de uma pista de dança. Não era exatamente glam rock, nem disco, nem aristocracia francesa. Era uma mistura estranha — e justamente por isso interessante — de tudo isso ao mesmo tempo.

A sensação era a de assistir a um Studio 54 instalado dentro de um museu do século XVIII. E talvez essa fosse a verdadeira ideia da coleção. O convite e o teaser em forma de globo espelhado já antecipavam essa atmosfera, enquanto a trilha sonora, que transitava entre Headie One, Jamie T, Jhené Aiko, KETTAMA, KTNA, Latin Mafia, Mabe Fratti e Young Thug, colocava batidas contemporâneas para ecoar entre móveis históricos e retratos clássicos.
Ao final, o que Anderson parece perseguir não é uma reconstituição histórica nem uma fantasia futurista. Seu interesse está justamente no atrito entre esses dois mundos: um garoto francês muito cool que herdou um palácio, ligou o celular em uma caixa de som e resolveu transformar tudo em festa.
