A temporada de premiações chega com três filmes internacionais que possuem alguns pontos em comum: todos estrearam e foram premiados no Festival de Cannes 2025, foram adquiridos pela distribuidora norte-americana Neon e, apesar de serem de três países diferentes e tratarem de temáticas distintas, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, e “Foi Apenas Um Acidente”, de Jafar Panahi, também são ligados por uma palavra: denúncia.
Ter essas três produções fortes disputando espaço nas premiações norte-americanas já é, por si só, uma grande vitória. Enquanto a França representa “Foi Apenas Um Acidente”, vencedor da Palma de Ouro de Cannes 2025 (e censurado em seu próprio país), o Brasil chega com “O Agente Secreto”, premiado em Direção e Ator, e a Noruega com “Valor Sentimental”, vencedor do Grand Prix. Três obras muito diferentes, mas unidas pela coragem de enfrentar governos e ideologias opressoras por meio do cinema.
Em “Foi Apenas Um Acidente”, a política está presente em cada camada do filme. Para começar, ele foi gravado ilegalmente no Irã por conta do regime — e esse foi justamente um dos motivos pelos quais a França decidiu submetê-lo ao Oscar. A inspiração veio após o próprio Panahi ter sido preso em 2022 e iniciado uma greve de fome.
No longa, Vahid encontra um homem que acredita ser seu ex-torturador e, após sequestrá-lo, sai em busca de outros ex-prisioneiros para confirmar sua identidade e decidir o que fazer com ele. Apesar de ser um filme pequeno em escala, é gigante no impacto.
Panahi denuncia não só o regime iraniano, mas também nos faz questionar moralidade, corrupção e empatia em gestos mínimos. Não foi à toa que o diretor foi condenado a um ano de prisão no Irã pelo filme.
Em “Valor Sentimental”, Joachim Trier convoca Stellan Skarsgård, Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning para contar uma história sobre família e memória. Gustav Borg, um cineasta norueguês que já teve uma carreira de prestígio, retorna às filhas após a morte da ex-esposa com um novo projeto de filme e oferece o papel principal para Nora, sua filha atriz de teatro.
No entanto, o papel acaba ficando para uma estrela de Hollywood, interpretada por Elle Fanning, que ele conhece em um festival. A princípio parece apenas um drama familiar, mas o filme revela algo maior: a verdadeira protagonista é a casa da família, carregada de memória histórica.
Nos anos 1940, a matriarca, que participava da resistência norueguesa, foi capturada durante a ocupação nazista, e a outra filha de Gustav, uma historiadora acadêmica que tem acesso ao Arquivo Nacional, descobre as torturas às quais a avó foi submetida. É um filme sobre como o passado insiste em existir no presente.
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, é ambientado na ditadura militar brasileira nos anos 1970 e acompanha Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um professor e pesquisador de tecnologia que passa a ser perseguido pelo regime e busca refúgio em Recife, na pensão de Dona Sebastiana, que acolhe exilados e perseguidos políticos.
A casa se transforma em um lugar de proteção e tensão constante, onde cada batida na porta pode significar perigo e cada gesto cotidiano carrega o peso do medo. Kleber transforma esse ambiente em espelho do país, discutindo vigilância, paranoia estatal, resistência coletiva e como vidas comuns são atravessadas pela violência do Estado.
Mais do que um thriller político, é um retrato sensível e contundente de um Brasil que insiste em não ser esquecido. Situado em Recife, o filme convoca traumas recentes, como o caso do menino Miguel, para evidenciar como a desigualdade, a violência do Estado e a negligência estrutural continuam atravessando o presente.
Bem, quem vai ganhar o Oscar ou as outras premiações que antecedem eu não sei. Mas uma coisa é certa: todos já são vencedores. Vencedores pela bravura, pela coragem e por transformarem dor, memória e resistência em cinema — e por lembrarem ao mundo que a arte ainda é um dos últimos lugares onde a verdade insiste em existir.
