Acordar cedo para assistir a Schiaparelli parece um pesadelo, até que ele comece e te faça sonhar de novo. O convite deste ano era uma cabeça de cobra com asas, para uma coleção chamada “A agonia e o êxtase”. Daniel começou a pensar no desfile durante uma visita à Capela Sistina. Antes mesmo de olhar para o teto e contemplar algumas obras de Michelangelo, foi engolido pelas paredes tomadas por tantos outros artistas. Ali, Roseberry afirma ter parado de pensar e se permitido sentir a grandiosidade daquele ambiente.
Dessa vez, o diretor criativo trouxe aves, répteis e aracnídeos para o centro da narrativa. As penas carregavam todo o cuidado e o trabalho manual da Alta Costura, como em um vestido com mais de 60 mil penas pintadas com aerógrafo em 27 tons de azul, criando o trompe l’oeil perfeito. O degradê dos vestidos era feito com camadas sobrepostas de tule, enquanto os espinhos, bicos, pássaros e cobras presentes nos sapatos e peças foram fruto de mais uma parceria com a Animal Replicas.


As penas macias e coloridas contrastavam com um vestido de crocodilo e com as caudas de escorpião. O formato do bustier de alguns modelos também remetia a cabeças de cobra e, quando a extensão da peça ganhava franjas, era como se elas rastejassem pelo espaço, até que os pássaros invadissem novamente a apresentação.

As joias foram inspiradas naquelas que foram roubadas do Museu do Louvre, mas reimaginadas para o desfile da Schiaparelli. O pesadelo para uns virou sonho na criação de outros. Como deuses e monstros, cada potência tem sua própria força, mas todas nos chamam para a realidade.


Ao fim do release, Daniel diz: “Parei de pensar pela primeira vez em anos sobre como algo deveria ser, mas sim sobre como me sinto ao criá-lo. Que o resto do ano seja sobre a realidade, seja na moda ou em outro lugar. Mas nada é mais poderoso — ou atemporal — ou, para mim, mais urgente agora, do que poder desacorrentar minha imaginação… e, espero, a sua. Alta-costura é um convite. Pare de pensar, ela te diz. É hora de sentir. Você só precisa olhar para cima.” Talvez seja importante olhar para o alto e pensar em voar. Mas há também beleza naquilo que mantém nossos pés no chão.
