Luanda Vieira tinha 31 anos quando assumiu um posto simbólico e grandioso na sua carreira: se tornou a primeira editora negra de beleza e wellness da Vogue Brasil. Anteriormente vinda da Glamour Brasil, o cargo foi um grande feito na carreira de qualquer jornalista, mas teve que ser ‘deixado’ para trás devido a um burnout. Antes disso, no entanto, sua trajetória já passava por outro tipo de exigência: ainda jovem, morou em Nova York para estudar balé, experiência que ajuda a entender a relação intensa que ela construiu com disciplina, desempenho e com o próprio corpo ao longo dos anos.
Hoje, dona de mais de 75 mil seguidores no Instagram, foi na rede social que ela se estabeleceu no mercado de influência após deixar a redação tradicional, atuando como uma jornalista independente e uma influenciadora, mas daquelas — que hoje é raro — que realmente influenciam pro bem. Abordando temas que vão de saúde mental, conversando com a comunidade criada sobre a importância da pausa e de reconhecer limites, ou incentivando seus seguidores à prática de atividades físicas por meio da hashtag #XôAnsiedade, Luanda lança agora seu primeiro livro “Nada é definitivo: Toda mudança requer coragem”.
“Eu sempre fui muito acelerada, sempre tive a sensação de que não podia perder tempo. Eu queria ser editora antes dos 30, queria ir além do que era exigido”

O que não aparece nesse tipo de trajetória, que no currículo parece linear mas na prática está longe de ser, é o custo que sustenta esse tipo de ascensão. “Eu só consegui perceber que insistir também pode ser uma forma de se abandonar quando eu adoeci”, conta, ao lembrar do burnout que teve em 2021, momento em que conseguiu olhar para trás e entender que aquele ritmo vinha sendo sustentado há mais tempo do que ela mesma conseguia admitir. “Eu olhei pra toda a minha trajetória e entendi que tinha adoecido por insistir demais.” E, como uma boa capricorniana, como ela mesma lembra, a insistência pelo sucesso é mal de signo.
Ainda assim, ela não fala desse percurso a partir de arrependimento, mas de revisão. “Eu tenho orgulho da minha história, principalmente por ser uma mulher negra”, diz, antes de explicar que o que muda hoje não é a vontade de conquistar espaço, mas a forma como isso é feito. “Eu continuaria insistindo, mas com limites.” Por muito tempo, no entanto, limite não fazia parte dessa equação, já que, como ela mesma descreve, os sinais estavam no corpo, mas eram constantemente ignorados diante de uma ideia de futuro que parecia maior e mais urgente.
“Os sinais estavam no meu corpo, mas os meus sonhos eram maiores”.
Dentro da redação, esse movimento também era alimentado por uma lógica coletiva, em que crescer não é apenas desejado, mas esperado. “Existe uma competição muito forte, todo mundo quer se destacar, quer crescer, quer virar editor”, explica, situando um ambiente em que desempenho e visibilidade caminham juntos. No caso dela, porém, essa dinâmica não operava sozinha, já que a questão racial atravessava diretamente a forma como ela se percebia dentro desses espaços. “Ser uma mulher negra coloca uma pimenta nisso tudo”, diz.
“Eu sabia que dificilmente seria a primeira opção, então eu sentia que precisava mostrar o tempo inteiro que eu era realmente muito boa, pra não deixar espaço pra dúvida.”

Foto/ Divulgação
Se antes esse tipo de pressão se concentrava na redação, hoje ele assume outras formas nas redes sociais, onde ela passou a atuar depois de deixar o modelo tradicional de trabalho. “As redes reforçam muito essa comparação”, afirma. “A gente sabe que é um recorte, mas mesmo assim se compara”, completa, apontando para uma lógica que se intensifica ainda mais dentro do universo da moda, onde imagem e percepção estão no centro de tudo.
“É muito fácil alguém olhar e pensar: ‘a minha vida é um saco’”, diz, reconhecendo o efeito que esse tipo de exposição pode gerar, ao mesmo tempo em que não se coloca fora dessa engrenagem. “Eu olho pras redes como trabalho, falar da minha saúde mental também faz parte”, explica.
A mudança mais evidente, no entanto, aparece na forma como ela entende sucesso, conceito que atravessa tanto sua trajetória quanto o livro que lança agora. “O que mais me incomoda é a padronização do sucesso”, afirma, ao criticar uma ideia quase fixa de onde se deve chegar para ser considerado bem-sucedido. “Existe quase uma ditadura dizendo onde você precisa estar.”
A experiência do burnout tensiona diretamente essa lógica, especialmente porque ela mesma ocupou esse lugar que costuma ser visto como objetivo final. “Às vezes você está no cargo dos sonhos e não está bem”, diz, antes de concluir: “Hoje, sucesso pra mim é conquistar as minhas coisas sem adoecer.”
Chegar a essa definição, no entanto, passou por um processo que ela descreve como longo e difícil, especialmente no que diz respeito a reaprender a escutar o próprio corpo. “Foi muito dolorido”, lembra, ao falar do período em que precisou interromper completamente a rotina de trabalho.
“Eu fiquei 45 dias sem trabalhar, sem fazer nada.”
A pausa forçada abriu espaço para um processo de análise que envolveu terapia, repouso e uma revisão profunda de prioridades, algo que, segundo ela, não acontece de forma simples quando se passou anos operando no limite. “É muito difícil colocar limite quando você passou a vida inteira ultrapassando todos eles”, afirma.
Hoje, embora continue trabalhando, essa relação se dá de outra forma, com pequenas mudanças que, na prática, reconfiguram o dia a dia. “Agora eu paro, eu respiro, eu me observo”, diz, descrevendo um tipo de atenção que antes não existia. É desse lugar que nasce “Nada é definitivo: Toda mudança requer coragem”, livro que começou como ficção, mas que, ao longo do processo, tomou outro rumo. “Minha editora falou: ‘Lu, isso aqui é a sua história’”, conta, explicando a virada que transformou o projeto em um livro de memórias.
Mais do que narrar a própria trajetória, o livro se organiza em torno de uma ideia que, para ela, ainda é pouco aceita: a desistência como possibilidade legítima. “A gente precisa olhar para a desistência como um lugar de força, não de fracasso”, afirma. “Às vezes, a gente desiste porque tem outros objetivos, porque precisa se preservar.”
Ao propor esse deslocamento, ela não oferece uma resposta pronta, mas abre espaço para uma pergunta que atravessa toda a narrativa e, inevitavelmente, chega a quem lê: até que ponto vale sustentar um caminho que já não faz sentido?
Se pudesse voltar no tempo, é com esse tipo de reflexão que ela diz que gostaria de ter tido contato mais cedo, especialmente ao pensar na versão de 18 anos, quando se mudou para Nova York para estudar balé. “Eu diria pra ela ter calma, que as coisas iam dar certo e que ela não precisava ligar tanto pra opinião dos outros.”
“Eu quero que quem leia o livro se sinta incentivado a mudar alguma coisa, nem que seja trocar a cor da parede ou até mudar de carreira.”
Na próxima quarta-feira, dia 29 de abril, Luanda Vieira lançará o livro na Livraria da Travessa, em São Paulo, a partir das 19h, seguido de um bate-papo comandado por Pedro Camargo, editor de beleza da Elle Brasil, sobre o processo criativo e os temas centrais da obra. O livro já está disponível para compra — acesse o link aqui.
