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Dois anos depois de apresentar seu último filme, "O Quarto ao Lado", seu primeiro longa em língua inglesa, que reuniu Julianne Moore e Tilda Swinton em uma reflexão sensível sobre amizade, morte e autonomia, Pedro Almodóvar está de volta com "Natal Amargo", que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28). Em seu vigésimo quarto longa-metragem, o cineasta espanhol retorna ao território que domina como poucos: o melodrama exuberante, as personagens femininas complexas, o humor ácido e a atmosfera queer que há décadas constituem sua assinatura artística.

Em um filme conduzido com segurança e elegância, somos apresentados inicialmente a Elsa (Bárbara Lennie), uma publicitária que vive em constante estado de fragilidade física, acumulando consultas médicas e visitas ao hospital. Aos poucos, por meio de diálogos sutis e extremamente bem construídos, o roteiro revela fragmentos de seu passado e das pessoas que orbitam sua vida, entre elas Bonifacio, um bombeiro que, durante a noite, exerce uma ocupação bastante inusitada. É justamente nesse contraste entre o drama e o absurdo que surge um dos traços mais característicos do humor almodovariano.

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Mas por trás da trama aparentemente simples existe uma camada metalinguística que dá profundidade à obra. O filme gira em torno de um roteirista que transforma pessoas e acontecimentos de sua vida em ficção, levantando um questionamento tão fascinante quanto desconfortável: até que ponto a arte tem o direito de se apropriar das experiências alheias? Da mesma forma que o cinema pode preservar memórias e dar sentido ao caos da existência, ele também pode expor intimidades e reabrir feridas. Nesse aspecto, "Natal Amargo" dialoga com obras recentes como "Segredos de um Escândalo", que também investigam as consequências éticas de transformar vidas reais em narrativa.

Ao mesmo tempo, Almodóvar não abandona o olhar queer que atravessa sua filmografia desde os anos 1980. Embora de forma menos central do que em alguns de seus trabalhos mais conhecidos, o filme é povoado por personagens que vivem fora das convenções tradicionais, relações afetivas pouco convencionais e figuras que encontram no afeto uma forma de resistência. É um cinema que continua tratando a diversidade com naturalidade e humanidade, sem transformá-la em discurso ou panfleto, algo que poucos realizadores conseguem fazer com tanta autenticidade.

É tudo muito elegante, muito bem feito e de extremo bom gosto. A fotografia é deslumbrante, explorando uma paleta de cores vibrante que parece saída diretamente dos grandes clássicos do diretor. Os cenários, figurinos e enquadramentos reforçam a sensação de estarmos diante de um universo onde cada detalhe foi cuidadosamente calculado para expressar emoções. Como sempre acontece em Almodóvar, a estética não é apenas um elemento decorativo, mas uma extensão dos próprios personagens.

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O que mais impressiona, porém, é a maneira como o cineasta consegue equilibrar temas densos sem abrir mão do entretenimento. Há espaço para o humor, para o romance, para a tragédia e até para momentos de puro exagero novelesco. Em mãos menos talentosas, essa mistura poderia facilmente descambar para o excesso. Em Almodóvar, no entanto, ela encontra uma harmonia rara, fruto de alguém que conhece profundamente os mecanismos do melodrama e sabe exatamente como utilizá-los.

"Natal Amargo" talvez não seja o filme mais inovador da carreira do diretor espanhol, mas certamente está entre os que melhor sintetizam suas obsessões criativas. E, para os fãs de longa data, há ainda um bônus especial: o retorno de Rossy de Palma, uma das musas mais emblemáticas do universo almodovariano. Sua presença carismática reforça a sensação de reencontro que permeia todo o longa, como se o cineasta estivesse revisitando não apenas temas e personagens, mas também parte da própria trajetória.

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Para quem sentia saudades do Almodóvar das grandes paixões, dos personagens extravagantes e das emoções à flor da pele, "Natal Amargo" funciona como um retorno caloroso. Um filme que olha para o passado sem nostalgia excessiva e encontra, no próprio ato de contar histórias, sua maior razão de existir. Em outras palavras: Pedro Almodóvar sendo Pedro Almodóvar — e isso, por si só, já vale o ingresso.

Confira o trailer:

Hylentino

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