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Pouco antes de mudar para São Paulo, um amigo me disse: “São Paulo é cheia de oportunidades, mas não é fácil. Ou você engole a cidade, ou ela te engole”. Levei pra vida, e, quando vi o modelo abrindo o desfile da Gucci com uma maçã, foi a primeira frase que me veio à cabeça.

Nova York — que dizem ser muito parecida com a principal metrópole da América Latina — tem o apelido carinhoso de “Big Apple” desde 1920 porque, no universo das corridas de cavalos, a cidade era vista como o maior e mais desejado prêmio a conquistar. E foi ali que a Gucci, em 1953, deu um passo histórico em uma cidade cheia de novas possibilidades: sua primeira loja fora da Itália. Na selva de concreto onde os sonhos são feitos, o movimento da Gucci a colocou à frente de outras casas quando falamos em expansão internacional, mas será que a mesma direção funciona para uma Gucci que estava mal das pernas há algum tempo?

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Olhe pra cima e pros lados e veja os telões da Times Square te engolindo. Preste atenção nas propagandas e perceba que você vive dentro de um universo Gucci, onde tudo é Gucci, e, desde o primeiro modelo que passa pela passarela, minha cabeça só consegue repetir Gucci até o final.

Em uma cidade movida pelo dinheiro, a alfaiataria abre alas para mais um show composto por personagens. Aos poucos, eles saem do escritório e vão ganhando as ruas. A estola é exagerada, o tapete de yoga é grifado, assim como as mochilas também são. As bolsas são grandes, os casacos continuam sensuais, como grandes estrelas de um look que não quer ser despretensioso, mesmo que o acting o force a parecer. Do nada, Tom Brady surge em um conjunto de couro, sem fazer questão de esconder que é Tom Brady, desfilando e sorrindo pela passarela, que logo depois também recebe Paris Hilton, morena e exagerada, impossível de não reconhecer.

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Quando olhamos para o styling, buquês de flores, livros, iPhones, fones e sobreposições reforçam a ideia de uma cidade onde a vida acontece, mas também a visão de possibilidades infinitas para o enredo de cada um desses personagens.

Outro ponto que vale a pena ser visto é que, no desfile Cruise, Demna não teve medo de repetir códigos que explorou na Balenciaga, como as calças oversized. Porém, aqui, o diretor criativo aplica isso a uma silhueta justa na parte de cima, equilibrando a sensualidade colada da Gucci com seu DNA mais urbano de uma forma em que nenhum dos dois lados vence: eles se completam.

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A maquiagem também é um ponto que reforça a ideia de exagero. Os olhos esfumados, as sobrancelhas arqueadas e finas e a boca bem marcada não podem passar despercebidos porque não fazem questão de ser.

A ida de Demna Gvasalia para a Gucci tem como principal objetivo fazer a marca ser vista novamente, e os resultados já estão por aí, como prova a subida de quatro posições no ranking da Lyst. E essas consequências só acontecem porque Demna não tem medo de arriscar e exagerar: ele joga alto e repete a jogada até acertar.

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A coleção não é nada que nunca vimos, e nem é pra ser. Ela é uma mistura de tudo que Demna já apresentou. Repetição gera memória. Quando você quer criar um novo hábito, o repete várias vezes até que ele se torne realidade. Quando quer muito acreditar em algo, faz a mesma coisa. Quando precisa provar algo para alguém, a estratégia também é a mesma. E, depois de quatro desfiles, é impossível não se sentir imerso no universo Guccicore de Demna Gvasalia.

Sinto que Demna ainda não mostrou tudo que tem para mostrar na Gucci, e não por cautela, mas por esperar o momento certo para desfrutarmos de um banquete depois de sermos engolidos pela Gucci do designer. Se, para alguns, o estilista ainda pairava sobre uma dúvida eterna de “cospe ou engole”, os números e a grandiosidade de Demna à frente da Gucci já poderiam citar Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”.

Assista ao desfile completo:

Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

Hylentino
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