Anne Hathaway estrela cinco filmes em 2026 e, com a estreia de "O Fim da Rua" nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (13), chega à reta final daquele que talvez seja o ano mais movimentado de sua trajetória recente em Hollywood. Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell, conhecido por "Corrente do Mal" e "Under the Silver Lake", o longa mistura drama familiar, ficção científica e dinossauros para recuperar um modelo de blockbuster que parecia ter sido deixado para trás.
Existe algo de profundamente spielberguiano em "O Fim da Rua". Não apenas pela presença dos dinossauros, que inevitavelmente remetem a "Jurassic Park", mas pela maneira como Mitchell estrutura a narrativa e transforma uma vizinhança comum em um grande palco para o caos. Steven Spielberg construiu parte de sua filmografia a partir da capacidade de converter ambientes familiares em espaços de aventura, e o diretor parece beber dessa mesma fonte ao desenvolver a Rua Oak e seus moradores.
Ambientado nos anos 1980, o filme acompanha a família Platt. Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), um entregador de pizzas, vivem com os dois filhos em um típico subúrbio estadunidense, cercados por vizinhos que compartilham conflitos, afetos e pequenas tensões cotidianas. O primeiro ato do filme é, talvez, um dos seus maiores acertos, justamente porque Mitchell resiste à tentação de acelerar a narrativa e dedica um tempo considerável à apresentação daquele universo.
Antes da chegada dos dinossauros, o diretor investe na construção das relações entre os moradores, permitindo que o público compreenda a dinâmica daquela comunidade. Essa decisão é fundamental, porque os vínculos estabelecidos nos primeiros minutos se transformam em uma ferramenta narrativa importante quando o bairro entra em colapso temporal e as criaturas pré-históricas passam a coexistir com os moradores da Rua Oak.
Embora exista uma explicação para o fenômeno que desencadeia os acontecimentos do filme, Mitchell não transforma a ficção científica em um exercício excessivamente expositivo. O roteiro oferece respostas, mas não interrompe constantemente a narrativa para justificar cada acontecimento, permitindo que a aventura permaneça no centro da experiência.
Essa escolha se reflete diretamente no ritmo do filme. Em vez de construir uma narrativa excessivamente preocupada com a lógica, o diretor concentra seus esforços na atmosfera, no desenvolvimento dos personagens e na construção da tensão. O resultado é um filme que entende que o espetáculo não depende apenas dos efeitos visuais, mas da capacidade de fazer o público se importar com quem está em cena.
O design de produção também merece destaque. A ambientação dos anos 1980 é utilizada de maneira eficiente, e os cenários ajudam a construir um universo visualmente consistente, no qual o cotidiano suburbano e a presença dos dinossauros coexistem de maneira surpreendentemente natural.
Outro aspecto interessante é a maneira como o longa lida com o perigo. Em um período em que muitos filmes voltados para o grande público parecem optar por narrativas mais confortáveis, "O Fim da Rua" recupera uma característica muito presente nos blockbusters das décadas de 1980 e 1990: a ausência de complacência.
As mortes acontecem sem grandes cerimônias, os ataques são brutais e existe uma constante sensação de vulnerabilidade. O perigo nunca parece distante e o filme não cria a falsa impressão de que todos os personagens estão protegidos apenas porque ocupam posições importantes dentro da narrativa.
Sem a pretensão de reinventar o cinema de ficção científica, David Robert Mitchell entrega um filme que compreende perfeitamente as referências que escolhe utilizar e recupera um modelo de blockbuster que parecia ter desaparecido. Mais do que uma homenagem a Steven Spielberg, "O Fim da Rua" resgata a aventura, a imprevisibilidade e a capacidade de provocar encantamento e aflição ao mesmo tempo, demonstrando que a nostalgia ainda pode ser uma ferramenta poderosa quando existe uma visão autoral capaz de sustentá-la.
