A espera acabou: “O Morro dos Ventos Uivantes” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (12). O filme, que já nasce polêmico, “adapta” para as telonas o clássico de Emily Brontë, publicado em 1847. Com direção de Emerald Fennell (“Saltburn”), o projeto da produtora LuckyChap — de Margot Robbie e Tom Ackerley — reúne novamente Robbie e Jacob Elordi, que já colaboraram em “Saltburn” (Robbie como produtora e Elordi como ator), agora em uma releitura do romance gótico. Lançar o filme no fim de semana do Valentine’s Day dá a pista: a obra aposta mais na fanfic do que no drama sombrio do livro, e são nesses detalhes que percebemos sua nova abordagem.
Em meio às polêmicas da escolha de Jacob Elordi para Heathcliff e outras decisões de elenco, o filme se apresenta como uma reinterpretação do original, eliminando a camada moral vitoriana e suavizando o drama intenso da obra. A grande questão é: a adaptação amplia o alcance do clássico ou reduz sua força original?
Narrativa
Emerald Fennell opta por abandonar a estrutura em camadas do romance de Emily Brontë, que é narrado por Lockwood e mediado pela memória de Nelly Dean. No livro, essa construção cria distanciamento, dúvida e complexidade moral. No filme, essa arquitetura é substituída por uma narrativa linear centrada 100% no triângulo Catherine-Heathcliff-Edgar.
Ao eliminar a segunda geração e a longa engrenagem de vingança que se estende pelos filhos, a adaptação deixa de ser uma história sobre consequências históricas e passa a funcionar como um drama romântico sobre escolha e frustração - aproximando-se mais da lógica emocional de filmes como "Vidas Passadas", de Celine Song, em que a pergunta central gira em torno do "e se?" amoroso.

O livro e o que fica de fora
No romance de 1847, o amor não é tratado como destino trágico, mas como força destrutiva. Heathcliff não apenas sofre; ele organiza uma vingança meticulosa que envolve manipulação financeira, casamentos forçados e controle psicológico da geração seguinte. O filme elimina justamente a parte mais perturbadora da narrativa, onde a obsessão se transforma em projeto de dominação.
Heathcliff branco
Um dos pontos mais controversos da adaptação é a escalação de Jacob Elordi, um ator branco, como Heathcliff. No romance, o personagem é descrito como "dark-skinneď" e tratado como estrangeiro e racialmente outro, condição que estrutura o desprezo que sofre. Ao embranquecê-lo, o filme reduz essa camada simbólica e desloca o conflito para um eixo mais econômico e emocional, esvaziando uma dimensão central do personagem.
Sexualidade e atualização contemporânea
Enquanto o romance constrói o desejo pelo discurso e pela intensidade emocional, o filme aposta em cenas diretas de masturbação e sexo. Essa escolha pode ser vista como uma forma de retirar o filtro da moral vitoriana, mas também muda o tipo de relação que vemos na tela. No livro, a conexão entre os dois é mais psicológica do que física; no filme, ela é centrada no corpo.

Fotografia
Visualmente, o filme aposta em interiores dominados por vermelhos na Granja dos Linton, com enquadramentos fechados que remetem a "Gritos e Sussurros" (1972), de Ingmar Bergman. No filme de Bergman, o vermelho está profundamente ligado ao sofrimento psíquico e à experiência feminina da dor e da morte, que também dialoga com a abordagem de Emerald Fennell.
Figurino e anacronismo
O figurino reforça essa postura contemporânea. Embora ambientado no século XIX, o filme incorpora materiais e texturas que não buscam fidelidade histórica. A decisão parece delibera- da: não se trata de reconstruir o período com precisão, mas de criar uma atmosfera híbrida entre passado e presente. Esse tipo de anacronismo aproxima o filme de uma leitura estética atual, mas também reforça que o filme é uma reinterpretação e não uma adaptação.

A versão de 2026 não é uma transposição literal do romance, mas uma leitura contemporânea que privilegia o romance, o erotismo e a identificação emocional. Ao simplificar a estrutura, suavizar a brutalidade de Heathcliff e enfatizar a dimensão estética, o filme se afasta da radicalidade moral e narrativa de Emily Brontë. A questão que permanece é se essa atualização amplia o alcance da obra ou se reduz parte de sua força original?
