MODA3 min de leitura

Tem uma carta no tarô que representa O Louco: um viajante à beira de um precipício, prestes a pular. Independentemente do que exista lá embaixo, ele sabe que precisa descobrir.

Toda vez que vejo o mar, tenho a impressão de que ele chama. Infinito e azul, não consigo dimensionar sua grandeza e passo algum tempo imaginando tudo o que existe lá embaixo. Engraçado que, ainda assim, tenho medo. Nem sei nadar. Mas sempre penso nessas histórias de que o ser humano conhece mais a superfície da Lua do que o fundo do mar. Talvez Daniel Roseberry também tenha se jogado nesse lugar.

A passarela de espelhos reflete o céu e transforma o espaço em um infinito, como o encontro entre o céu e o mar. As modelos atravessam esse cenário lentamente, começando pelo look preto e pelo recorte de fechadura que parece abrir as portas para o abismo.

As jaquetas ganham formas orgânicas, como se fossem tentáculos. O uso do látex traz o brilho gelatinoso. Vemos bordados com conchas, flores e pérolas. Nas costas e no abdômen das modelos, próteses fazem seus corpos parecerem conchas abertas, revelando uma pérola no centro — quase como a materialização da descoberta. Já as modelagens mais rígidas lembram os esqueletos de crustáceos.

O vestido com peplum parece uma água-viva em movimento. As rendas lembram bolachas-do-mar e, nos looks mais coloridos, os corais também encontram seu espaço. Tudo parece vivo. O último vestido entra na passarela como uma anêmona iluminando o próprio caminho com um movimento leve, hipnotizante, quase fazendo a gente esquecer que sua beleza também pode queimar.

Daniel Roseberry parece viciado em acertar. Enquanto lia sobre o desfile e acompanhava seu relato sobre a dificuldade de criar, pensei que talvez, com o tempo, com os holofotes, com a atenção e com uma sequência de acertos, a gente desaprenda a errar.

Algumas coisas são desconfortáveis. O mar nos seduz, mas também nos assusta, porque talvez não exista nada mais desconfortável do que aquilo que não conhecemos. Ao mesmo tempo, também não existe nada como a sensação do novo, da descoberta, das possibilidades infinitas, de encontrar algo que faz os nossos olhos brilharem pela primeira vez.

Clarice Lispector dizia que, depois do medo, vem o mundo.

Daniel Roseberry contou que só entendeu o que queria fazer quando ouviu esse "chamado do abismo" e decidiu criar sem partir de uma viagem, como acontecia em suas coleções anteriores. Ele escreveu:

"Foi uma experiência prazerosa, mas também, por vezes, emocionalmente complexa. Afinal, a criação artística sempre foi uma jornada elusiva. Suas dificuldades e frustrações não são apenas parte do processo... elas são o próprio processo. Os momentos em que a certeza se desvanece são frequentemente aqueles em que algo verdadeiramente novo se torna possível."

Que, assim como Daniel Roseberry, O Louco ou aqueles que decidem desbravar o fundo do mar, a gente aprenda a dar mais passos em direção à beleza infinita que só encontra quem está disposto a ouvir o chamado do abismo.

Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

Hylentino
© 2026 Todos os Direitos Reservados
Desenvolvido por Filtro Lab Criativo