Opinião2 min de leitura

Cresci com a minha mãe me ensinando que eu não deveria andar de roupas curtas perto de homem nenhum e, mesmo aos quase 30, em qualquer situação em que ela sinta que eu possa estar em perigo, ela repete. Na minha adolescência, quando eu ia para a escola sozinha e tinha que pegar ônibus lotado, eu preferia perder meus pertences e manter a mochila nas costas a deixá-la na frente e pensar que alguém poderia encostar em mim. Até hoje, evito sair sozinha, não saio sem mandar a localização para alguém e não aceito ajuda de homem algum, porque é como se, para eles, aceitar qualquer coisa fosse se abrir para o que eles quiserem. Eu cresci aprendendo a me blindar de tudo por medo de que o meu corpo fosse invadido, como se a minha vontade fosse importar quando a de um homem fosse prevalecer.

Algumas perdem a paz, o amor-próprio, a saúde mental, a segurança de si, a confiança nos outros; outras perdem o próprio rosto depois de levar mais de 60 socos; outras, as pernas e a vida, depois de serem arrastadas por mais de 1 km.

Lembro de ter 7 anos quando ouvi sobre Liana e todo o horror que ela passou até ser morta. Aos 12, torcia para Eloá ficar viva depois de vê-la na janela tantas vezes, sequestrada e privada de escolher viver, aos 15 anos, para o Brasil inteiro ver — assim como viu uma participante do BBB ser assediada dentro da casa mais vigiada do país.

Eu me pergunto: o que é capaz de parar um homem? Passar a vida toda em uma prisão? Ter câmeras de todos os lados para que ele não possa fugir das próprias ações? Ficar manchado para sempre na sociedade? Nada para um homem que acredita ser livre para fazer o que quiser com uma mulher. Uma posse que invade, arrasta, atira, esfaqueia, estupra e mata, sem nenhum remorso, porque, no fim, sempre vai haver uma desculpa para a culpa ser da mulher, mesmo quando somos as vítimas da situação.

Ser mulher é viver insegura porque um homem se sente seguro o suficiente para ser dono de você quando bem entender. É ele quem escolhe entre o bem ou o mal, ser ou não ser, e acredita que querer é poder, mesmo quando você não quer. Para ele, ir até o final é vencer; para nós, é morrer, até quando continuamos vivas.

Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

Hylentino
© 2026 Todos os Direitos Reservados
Desenvolvido por Filtro Lab Criativo