Baseado no livro “Na Companhia das Estrelas”, do autor Peter Heller, “Ponto Sem Retorno”, novo filme de Ridley Scott, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (27), cercado de expectativas que parecem maiores do que aquilo que a produção é capaz de entregar. Com orçamento de US$ 110 milhões e um elenco formado por Jacob Elordi, Margaret Qualley e Josh Brolin, o longa tinha todos os elementos para transformar uma história de sobrevivência pós-apocalíptica em um thriller envolvente. O problema é que, durante boa parte de suas quase duas horas, simplesmente não parece saber o que fazer com eles.
A história se passa em 2035, depois de uma pandemia de gripe que dizimou grande parte da população mundial e transformou a sobrevivência em uma disputa constante por recursos. Em meio a esse cenário, o mecânico Hig (Jacob Elordi) vive isolado em uma propriedade no Colorado ao lado de seu cachorro Jasper e de Bangley (Josh Brolin), um ex-fuzileiro naval que o ajuda a proteger o local de possíveis ameaças. Enquanto Hig mantém uma visão mais otimista sobre o futuro, Bangley assume uma postura desconfiada e agressiva diante de qualquer pessoa que possa colocar os dois em risco.
Quando não está cuidando da propriedade, Hig utiliza um pequeno avião para sobrevoar a região e procurar mantimentos, em uma rotina que se repete até que ele decide seguir em direção a um lugar onde acredita que possa encontrar outros sobreviventes. No caminho, conhece uma dupla formada por pai e filha, interpretados por Guy Pearce e Margaret Qualley, que acabam se juntando à sua jornada. E é justamente aí que “Ponto Sem Retorno” começa a revelar seu principal problema: quase nada acontece.
A escolha por uma narrativa mais contemplativa não seria necessariamente um defeito. Filmes pós-apocalípticos podem funcionar muito bem quando deixam a ação em segundo plano para explorar a solidão, o medo, a perda e as relações construídas entre os poucos sobreviventes. O problema é que Ridley Scott não encontra profundidade suficiente nesses personagens para sustentar esse ritmo. O silêncio não se transforma em atmosfera, a contemplação não produz tensão e os momentos dramáticos raramente provocam alguma emoção.
O longa parece constantemente se preparando para alguma coisa que nunca chega. A ameaça existe, os personagens falam sobre ela, o roteiro cria situações que parecem anunciar uma grande virada, mas a narrativa permanece presa em uma sucessão de acontecimentos pouco relevantes. Quando finalmente tenta acelerar, já é tarde demais para despertar qualquer envolvimento. Também não ajuda o fato de o roteiro insistir em construir um arco emocional para Hig que nunca ganha força suficiente. A perda da esposa, a relação com Jasper e sua esperança de encontrar outras pessoas são apresentados como elementos capazes de revelar a fragilidade daquele homem diante de um mundo destruído, mas tudo é tão superficialmente desenvolvido que o espectador pouco tem com que se importar.
Jacob Elordi tenta sustentar o protagonista através de uma atuação contida, mas passa boa parte do filme preso a olhares melancólicos e expressões estoicas. O problema não está necessariamente no desempenho do ator, mas no material que recebe. Hig é um personagem pouco desenvolvido, e o roteiro parece acreditar que basta colocá-lo diante de uma paisagem vazia, olhando para o horizonte, para que sua dor seja automaticamente transmitida ao público.
O mesmo acontece com os demais personagens. Josh Brolin tem presença suficiente para transformar Bangley em uma figura interessante, mas o roteiro reduz sua personalidade praticamente à função de homem desconfiado e pessimista. Margaret Qualley, por sua vez, entra na história tarde demais e recebe pouco espaço para fazer com que sua personagem realmente importe.
É difícil olhar para “Ponto Sem Retorno” e não pensar no tamanho da produção. Estamos falando de um filme de US$ 110 milhões dirigido por um dos cineastas mais importantes do cinema contemporâneo, mas quase nada na tela justifica esse investimento. As paisagens são bonitas, a fotografia é competente e há momentos visualmente interessantes, mas falta ao filme uma sensação de grandiosidade, urgência ou mesmo identidade.
O resultado é particularmente frustrante porque a premissa tinha potencial. Um mundo devastado por uma pandemia, um homem isolado tentando sobreviver, um cachorro como única companhia, a ameaça constante de outros sobreviventes e a possibilidade de que ainda exista algo além daquele pequeno universo poderiam render um excelente estudo sobre solidão e esperança. “Ponto Sem Retorno”, porém, transforma tudo isso em uma experiência estranhamente apática.
“Ponto Sem Retorno” é um filme para a Tela Quente, não para a sala de cinema. É a produção perfeita para colocar na televisão, se jogar no sofá e deixar rodando enquanto o sono chega, porque dificilmente existe alguma coisa na tela capaz de mantê-lo acordado. Para uma sessão de cinema, porém, fica a pergunta: por que pagar ingresso para assistir a algo que poderia muito bem servir de trilha sonora para uma soneca?
