“O Agente Secreto” se tornou oficialmente um filme indicado ao Oscar, recebendo quatro indicações (confira aqui a lista de indicados), incluindo a de Melhor Filme, e igualando-se a “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, que também concorreu a quatro categorias há 23 anos. Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, e estrelado por Wagner Moura, o longa — gravado em Recife, São Paulo e Brasília — é ambientado na ditadura militar brasileira dos anos 1970. Não é à toa que Mendonça venceu o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes: trata-se de uma direção primorosa, que articula referências históricas e políticas com metáforas visuais e narrativas de grande força simbólica.
Sem dúvidas, um dos melhores filmes de 2025 e um dos grandes marcos da história do cinema brasileiro, “O Agente Secreto” é tudo isso e muito mais. Ao longo da matéria, nosso editor de cultura, Mateus Barbosa, analisa o contexto sociopolítico do filme e comenta algumas das referências que tornam “O Agente Secreto” tão potente e singular.
Contexto político
Em 2019, Kleber Mendonça Filho lançava “Bacurau” no Festival de Cannes e, apesar do reconhecimento internacional do filme, uma crítica direta ao autoritarismo, ele não foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar de 2020.
No mesmo ano, coincidentemente ou não, o ex-presidente Jair Bolsonaro ameaçou extinguir a Ancine caso não pudesse impor um “filtro” ideológico nos filmes financiados com dinheiro público. Ele criticava produções que considerava “imorais”, políticas ou fora dos “valores da família”, afirmando que não queria esse tipo de obra recebendo verba estatal.
Seis anos depois, Kleber Mendonça Filho retorna com “O Agente Secreto”, estreado novamente no Festival de Cannes, onde conquistou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor. O filme também foi adquirido pela distribuidora norte-americana Neon, responsável por sua projeção internacional e pela campanha do longa nesta temporada de premiações.

Bacurau (2019)
Narrativa
No filme, Wagner Moura interpreta Marcelo, que na verdade não se chama Marcelo, em um Brasil dos anos 1970 sob a ditadura militar. Professor universitário e chefe de um departamento de pesquisa em tecnologia em uma universidade pública do Recife, ele foi obrigado a deixar a cidade após episódios que comprometiam sua vida, e quando retorna, dois matadores de aluguel estão atrás dele.
Apesar de ambientado quase cinquenta anos atrás, o filme sugere que, durante o último governo brasileiro, pouco havia mudado. A arte e a educação foram frequentemente ameaçadas, inclusive pelo mesmo Estado que tentou deslegitimar obras como “Bacurau”, um retrato distópico de um Brasil que não parecia tão distante da realidade.
“O filme é importante para os brasileiros porque, naquele período, de 2018 a 2022, quando o Brasil viveu um momento fascista, no manual do fascismo a primeira coisa que eles fazem é atacar. E o que eles atacam são as universidades, os jornalistas e os artistas.”
- Wagner Moura

"O Agente Secreto" (Divulgação/ NEON)
Caso Miguel
Em uma cena em que um posto de identificação se transforma em delegacia para uma mulher rica depor sobre a morte do filho de sua empregada, a referência é direta ao caso do menino Miguel, ocorrido em 2020.
Miguel, filho de Mirtes, caiu do nono andar do prédio onde a mãe trabalhava, no Recife, após ser deixado sozinho no apartamento da patroa, Sari Corte Real. Enquanto Mirtes passeava com o cachorro, Miguel entrou no elevador. Sari acionou o elevador para outro andar. Ao sair no nono andar, ele acessou a área do ar-condicionado e caiu de uma altura de 35 metros, morrendo.
Dialeto
Uma das cenas mais comentadas do filme ocorre quando o sogro de Marcelo pergunta se ele “raparigou”. O termo rapidamente se disseminou na internet, mas trata-se de uma gíria do Nordeste, derivada de “raparigueiro”, usada no sentido de “trair”. A cena apresenta ao Brasil e ao público internacional o dialeto nordestino como elemento narrativo e cultural.

"O Agente Secreto" (Divulgação/ NEON)
Perna cabeluda
Outro elemento fundamental do filme é a presença da Perna Cabeluda, figura que realmente existiu no imaginário popular do Recife nos anos 1970 e chegou a ser noticiada em jornais da época, como o Diário de Pernambuco.
Naquele contexto, relatos sobre uma perna misteriosa que atacava pessoas circularam pela cidade, misturando medo, sensacionalismo e humor, em plena ditadura militar.
Tubarão
Em “O Agente Secreto”, “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg, aparece como referência direta. O medo não vem da imagem do perigo, mas da reação das pessoas a ele. Isso se manifesta tanto nos espectadores gritando dentro do cinema quanto no pesadelo do filho de Marcelo diante do cartaz do filme.
A lógica é a mesma: o terror se constrói pela antecipação. Ao situar essa referência no mesmo período histórico, o filme transforma “Tubarão” em metáfora da ditadura militar, um regime que operava mais pela intimidação e pela vigilância do que pela violência explícita.

"O Agente Secreto" (Divulgação/ NEON)
Arquivo
O filme é dividido em três capítulos, encerrados por cenas nos dias atuais em que duas mulheres ligadas à preservação e à pesquisa de documentos revisitam arquivos e registros oficiais.
A ameaça retratada é burocrática e documentada, registrada por instituições e atravessada por estruturas de poder do período. Ao retornar a esse material mais de quarenta anos depois, o filme sugere que essa violência foi arquivada, mas não totalmente elaborada.
