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Em outubro de 2021, o lateral-esquerdo australiano Josh Cavallo postou um vídeo gravado na sala de sua casa que rapidamente cruzou fronteiras. "Sou jogador de futebol e sou gay", disse ele olhando para a câmera, com a voz embargada, mas firme. A reação foi imediata. Clubes gigantes como Barcelona e Real Madrid manifestaram apoio; astros como Ibrahimović elogiaram sua coragem. O gesto foi celebrado no mundo todo como um marco para o esporte.

No entanto, por trás dos aplausos e das mensagens de acolhimento nas redes sociais, havia um detalhe incômodo: em pleno século XXI, o fato de um atleta profissional falar abertamente sobre sua sexualidade ainda precisava ser tratado como um acontecimento histórico e extraordinário. Se o futebol é o esporte mais popular e democrático do planeta — capaz de unir pessoas de todas as classes e culturas —, por que as estatísticas de atletas assumidamente gays ou bissexuais no topo do esporte continuam próximas de zero?

A resposta, segundo pesquisadores e organizações que combatem o preconceito, não está na falta de atletas LGBTQ+ nos elencos. Ela está em uma cultura antiga, construída e defendida há mais de um século, que transformou os gramados no último grande reduto de um modelo rígido de masculinidade.

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Josh Cavallo. Foto: Reprodução

A invenção do "homem ideal"

Para entender o silêncio nos vestiários de hoje, é preciso voltar aos campos da Inglaterra do século XIX. O futebol moderno não nasceu apenas como uma brincadeira, mas como uma ferramenta para moldar o caráter dos jovens ricos nos colégios internos britânicos.

Mais do que ensinar táticas, essas escolas usavam o esporte para criar homens fortes, competitivos, durões e preparados para liderar. O campo era visto como o lugar perfeito para desenvolver coragem física e resistência. Era o remédio ideal contra o que a sociedade da época considerava "fraqueza".

Essa herança cultural atravessou gerações e fronteiras. Ao se popularizar pelo mundo, o futebol virou uma espécie de teste de masculinidade. No imaginário popular, não bastava jogar bem; era preciso representar um padrão de homem: forte, viril, que não demonstra sentimentos e, obrigatoriamente, heterossexual. Quem foge desse desenho acaba visto, mesmo que inconscientemente, como um elo fraco no time.

Essa vigilância sobre o corpo do atleta mudou até as roupas do jogo. Nas décadas de 1970 e 1980, era comum ver os jogadores usando calções curtíssimos. Nos anos 1990, as bermudas ficaram compridas e largas. É claro que a moda e as marcas de material esportivo pesaram nessa mudança, mas estudiosos de gênero apontam que a transformação também coincidiu com o auge da epidemia de HIV/AIDS e com uma onda mais conservadora na sociedade. A ideia era "proteger" e distanciar o corpo do jogador de qualquer imagem que pudesse ser associada à homossexualidade.

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Jogador galês Kevin Ratcliffe nos anos 1980. Foto: Reprodução

O contraste com o futebol feminino

Essa obsessão em associar o futebol à masculinidade tradicional ajuda a explicar por que a realidade do futebol masculino é o oposto do que acontece no futebol feminino.

Nas categorias femininas, jogadoras lésbicas e bissexuais encontram um ambiente muito mais aberto e acolhedor. Estrelas mundiais como Marta, Megan Rapinoe e Sam Kerr vivem seus relacionamentos publicamente, com o apoio de clubes, patrocinadores e torcedores.

Isso acontece porque as mulheres precisaram romper barreiras imensas apenas para ter o direito de jogar futebol — que chegou a ser proibido por lei para elas em vários países, inclusive no Brasil. Como o futebol feminino nunca foi visto pela sociedade como a "fábrica do homem ideal", ele não herdou a obrigação de proteger esse padrão de masculinidade. Livre desse peso, a modalidade feminina acabou se tornando um espaço muito mais livre, diverso e seguro para as atletas serem quem são.

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Marta. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

"Eu entendi que o futebol não aceitava homossexuais"

Se para as mulheres o caminho foi de ocupação e liberdade, no masculino a realidade se impôs como uma questão de sobrevivência. Poucas pessoas resumem esse cenário tão bem quanto o ex-goleiro brasileiro Emerson Ferretti, atual presidente do Bahia.

Criado na base do Grêmio e com passagens por Flamengo e Bahia — onde virou ídolo —, Ferretti precisou criar uma parede psicológica para proteger sua carreira. Em entrevista ao programa Conversa com Bial, ele relembrou o peso de crescer em um ambiente que rejeitava sua existência:

"Desde cedo eu entendi que o futebol não aceitava homossexuais. A minha adolescência foi nos anos 80. Naquela época não tinha internet. A homossexualidade inclusive era considerada doença pela OMS."

Emerson Ferretti

A linha do tempo ajuda a entender o isolamento dos atletas daquela época. Até maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda tratava a homossexualidade como um distúrbio mental. Nos anos seguintes, enquanto o preconceito crescia por causa da crise do HIV, o futebol profissional se fechava ainda mais. Para Ferretti e tantos outros, esconder quem eram não era uma escolha de privacidade, mas a única forma de continuar empregado.

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Emerson Feretti. Foto: Reprodução

O vestiário como espaço de cobrança

Grande parte do silêncio não é provocada pelas câmeras, mas acontece longe dos olhos do público: dentro dos vestiários.

É ali que, desde as escolinhas de base, os jovens jogadores aprendem o que é aceito e o que é proibido. Piadas pesadas disfarçadas de "resenha", o uso de termos preconceituosos para xingar quem joga mal e a necessidade constante de provar que se é "homem o suficiente" fazem parte da rotina do futebol há décadas.

O sociólogo Eric Anderson, que estuda o comportamento de atletas, explica que o maior obstáculo não é necessariamente o medo de sofrer uma agressão física dos colegas. O que realmente pesa é o medo do que pode acontecer depois. É a angústia de ser tratado de forma diferente: perder o respeito do grupo, virar reserva sem explicação, ser isolado pela diretoria ou ver contratos de patrocínio sumirem porque as marcas temem a reação do público.

Esse medo não precisa virar um ataque real para funcionar; a simples certeza de que ele existe é suficiente para manter todo mundo calado.

O preço da liberdade: o caso Josh Cavallo

A prova de que esse receio faz sentido apareceu na própria trajetória de Josh Cavallo. Anos após o seu vídeo emocionante, o jogador desabafou nas redes sociais e revelou o lado amargo de sua decisão.

Cavallo expôs que sofreu represálias e foi marginalizado pela diretoria do seu antigo clube, o Adelaide United, após assumir sua sexualidade. Segundo o atleta, o ambiente mudou radicalmente nos bastidores. O clube, por sua vez, rejeitou as acusações, afirmando publicamente que o afastamento e as decisões sobre o jogador foram estritamente técnicas — uma justificativa comum no futebol que, muitas vezes, serve para abafar problemas internos de preconceito.

Apesar dos desafios, as vozes de resistência estão crescendo. No Brasil, Emerson Ferretti decidiu falar abertamente sobre o tema após se aposentar dos campos. Em dezembro de 2023, ele levou essa representatividade para o topo do esporte: foi eleito presidente do Esporte Clube Bahia. Ao assumir o comando de um dos clubes mais tradicionais do país, ele se tornou o primeiro presidente assumidamente gay da história do futebol brasileiro de elite, quebrando uma barreira que muitos achavam impossível de superar.

Mudar o ambiente, não pressionar os atletas

É por causa dessa realidade dura que movimentos de torcedores tentam mudar o foco da discussão. Um dos maiores exemplos vem do Reino Unido com o Pride in Football, uma rede que une torcidas organizadas LGBTQ+ de dezenas de clubes ingleses e escoceses.

A ideia deles é simples: em vez de cobrar ou pressionar para que os jogadores "saiam do armário" em um ato heróico, a sociedade deveria se perguntar por que o futebol ainda é um lugar tão hostil.

Para a organização, a mudança de verdade não depende do sacrifício de um jovem jogador, mas sim de atitudes firmes do sistema:

  • Punições severas e perda de pontos para clubes com torcidas que cantam músicas preconceituosas;
  • Campanhas de conscientização reais para atletas da base, treinadores e diretores;
  • Garantias reais dos patrocinadores de que o apoio financeiro não depende da vida amorosa do atleta.

Quando o ambiente do futebol for seguro, o fato de um jogador ser gay deixará de ser um ato de coragem e passará a ser apenas um detalhe da sua vida privada.

O jogo está mudando?

O futebol está mudando? A resposta honesta é: sim, mas muito devagar. Se olharmos para vinte anos atrás, os avanços existem. Clubes usam as cores do arco-íris em campanhas, estádios divulgam mensagens contra a discriminação e torcidas LGBTQ+ conquistaram espaço nas arquibancadas.

Contudo, o fato de que cada nova declaração de um jogador sobre sua sexualidade ainda vire manchete no mundo inteiro é o maior sinal do tamanho do atraso. Em um esporte que movimenta bilhões e envolve milhares de profissionais, ter transparência sobre quem se ama ainda cobra o preço do heroísmo.

No fim das contas, a pergunta central nunca foi por que existem tão poucos jogadores gays no futebol. A provocação real que fica para clubes, federações e torcedores é outra: por que, em pleno século XXI, os atletas ainda têm certeza de que dizer quem são fora de campo pode colocar em risco tudo o que construíram com a bola nos pés?

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Hylentino

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