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Sabe o vestido xadrez de São João que, uma vez por ano, você tira do armário, ou aquela peça herdada da sua avó ou mãe que tem muito significado afetivo para você? É mais ou menos seguindo essa ideia que Chemena Kamali apresentou o Inverno 2026 da Chloé. Intitulada “Devoção”, a primeira linha do release, escrito pela própria em formato de carta, começa: “Nesta temporada, fiz uma reflexão sobre humanidade, empatia e devoção — sobre como a roupa pode guardar emoção e carregar memória”, e foi a partir dessa reflexão que a coleção, que cheira a naftalina — mas no bom sentido — tomou rumo.

Os primeiros looks traziam saias etéreas, mas não delicadas, já que receberam estampas com diferentes padronagens de xadrez, o que acrescentou peso e personalidade. E é aí que está a metáfora: a feminilidade não precisa ser frágil. Com as saias, blusas com bordados de flores traziam um sentimento de afeto, como se aquilo ali já tivesse pertencido a alguém, ou tivesse sido bordado por alguém muito especial.

No texto, Kamali também fala que a coleção é sobre explorar o que significa “folk” e, para ela, “O folk é sobre união. É sobre empatia, humanidade e uma conexão com o passado”. E é unindo peças que já pertenceram a alguém, unindo diferentes histórias, que as roupas ganham carga emocional. E, quando ela fala em “folk”, também fala de celebração — daquelas festas populares em que a roupa deixa de ser apenas roupa. No Brasil, o exemplo mais imediato talvez seja o São João: os vestidos xadrez, as saias rodadas, os bordados, tudo aquilo que reaparece ano após ano como um ritual afetivo. É exatamente esse espírito que pairava sobre a coleção: roupas que parecem atravessar gerações, como se já tivessem dançado em muitas festas antes de chegar à passarela.

O desfile terminou com Raquel Zimmermann, trazendo ainda mais peso para essa narrativa de tempo e memória. Uma das maiores modelos de sua geração, sua presença foi simbólica: como aquelas roupas, Zimmermann também carrega uma história dentro da moda. No fim, era justamente disso que se tratava a coleção de Chemena Kamali para a Chloé: roupas que não parecem apenas novas, mas vividas.

Hylentino

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