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Enquanto o Trocadéro se consolidou como o endereço oficial dos desfiles femininos da Saint Laurent, a Bourse de Commerce, em Paris, parece ter assumido o posto de QG das apresentações masculinas da maison. O diálogo entre moda, arquitetura e arte contemporânea transformou o espaço em uma extensão natural do universo construído por Anthony Vaccarello, que mais uma vez escolheu a rotunda do edifício para apresentar sua coleção de verão 2027.

Se no verão passado a passarela dividia espaço com "Clinamen", instalação do artista francês Céleste Boursier-Mougenot composta por uma piscina circular onde tigelas de porcelana flutuavam livremente sobre a água, desta vez o ambiente foi tomado por "Cloud #07156", da artista japonesa Fujiko Nakaya. A monumental escultura de névoa, que ocupa a rotunda central da Bourse de Commerce, cria um jogo constante entre aparição e desaparecimento, tornando o espaço quase etéreo. Os teasers divulgados pela Saint Laurent nas semanas anteriores, marcados por imagens de céus e nuvens em movimento, já indicavam o clima contemplativo que serviria de base para a coleção.

A atmosfera proposta por Vaccarello contrasta diretamente com a apresentada há poucos meses na coleção de inverno. Se anteriormente predominavam silhuetas rígidas, ombros marcados e uma sensação de autoridade quase intimidadora, agora tudo parece mais leve. É como se a névoa de Nakaya tivesse atravessado as roupas. O resultado é uma coleção que flerta com a nostalgia dos anos 1980 sem cair na caricatura, explorando uma masculinidade mais suave, sensual e vulnerável.

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Há algumas temporadas, Vaccarello parece ter encontrado uma fórmula bastante particular para a Saint Laurent masculina. Em um momento da indústria em que muitos diretores criativos buscam reinvenções constantes, ele escolhe o caminho oposto: o refinamento. A cada estação, revisita elementos já conhecidos e os apresenta sob uma nova perspectiva. Os corta-ventos, por exemplo, que anteriormente surgiam de maneira mais literal, agora aparecem reinterpretados, mais fluidos e desconstruídos. O gesto é sutil, mas revela um designer interessado em aprofundar sua linguagem em vez de abandoná-la.

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Essa confiança também se manifesta na construção das proporções. Os blazers usados com pernas à mostra inevitavelmente remetem a discussões recentes sobre a desconstrução dos códigos tradicionais da alfaiataria masculina, lembrando inclusive algumas das abordagens vistas na Prada. Ao mesmo tempo, Vaccarello mantém intacta a sensualidade característica da Saint Laurent, explorando corpos, transparências e volumes com uma naturalidade que evita o excesso de teatralidade.

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Nos momentos finais do desfile, os looks dourados introduzem uma dose de glamour que parece dialogar com uma linhagem histórica da própria marca. É difícil não enxergar ecos do imaginário construído por Hedi Slimane durante sua passagem pela Saint Laurent, especialmente na forma como o brilho surge associado à decadência elegante, ao rock e à ideia de uma juventude sofisticadamente desajustada.

Talvez esta não seja a coleção masculina mais impactante ou revolucionária da trajetória de Anthony Vaccarello na maison. Também não parece interessada em ser. Seu mérito está justamente em outro lugar: na capacidade de consolidar uma identidade criativa cada vez mais precisa. Em vez de perseguir o choque ou a novidade a qualquer custo, Vaccarello demonstra confiança suficiente para desenvolver uma linguagem própria, refinando códigos, silhuetas e referências temporada após temporada.

Em uma indústria cada vez mais acelerada, há algo admirável em observar um diretor criativo construir sua visão com paciência. E, no verão 2027 da Saint Laurent, essa construção continua acontecendo de forma silenciosa, elegante e extremamente consistente.

Hylentino

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