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Existe algo muito especial e uma visão muito privilegiada quando você já esteve do outro lado da moeda. Quando seus dois mundos se chocam no presente com outra perspectiva, a fluidez de já ter caminhado por esses espaços paralelos é um diferencial que permite olhar para coisas que só quem viveu sabe.


Conheci Brian Gallo ano passado em uma viagem para Nuremberg, na Alemanha, e mesmo em meio ao nervosismo do meu inglês inseguro e de uma certa pressão em tentar aproveitar aquela oportunidade, senti que de certa forma, compartilha´vámos uma paixão em comum: a moda e o esporte. Ouvindo ele falar, me lembro de o entender como uma pessoa calma, que fala quando se sente segura e que não precisa de grandes frases de efeito ou nada que suplique por atenção. Era como se ele se sentisse tão confortável em falar sobre o que sabia, em compartilhar e principalmente, estar tão imerso e seguro de si, que falar sobre moda e futebol - um assunto que algumas vezes pode causar tensão - fosse muito natural pra ele. E era.


Brian tem 31 anos, e passou a maioria deles imerso no mundo do futebol. Ele começou no 1. FC Nürnberg, aos 14 anos se mudou para Munique e jogou na base do FC Bayern Munich, onde jogou profissionalmente até chegar na categoria sub 19. Seu primeiro contrato profissional foi pelo SpVgg Unterhaching, e o último, no SpVgg Greuther Fürth, enquanto jogava o sub-23. Nesse período, Brian questionou sobre o que queria para o seu futuro e entendeu que precisava de um novo rumo, e então, ele resolveu se aventurar por outra paixão que sempre ocupou espaço em sua história: a moda.


"Minha trajetória é uma mistura de dois mundos que me moldaram igualmente: o futebol e a moda. Cresci cercado por competição, disciplina e cultura de equipe, mas ao mesmo tempo sempre fui fascinado por estética, estilo pessoal e pela forma como as pessoas se expressam através das roupas e da imagem. Infelizmente, eu não consegui dar o salto final para uma carreira profissional de longo prazo. Em determinado momento, precisei me fazer uma pergunta honesta: eu queria continuar jogando em divisões amadoras até os meus trinta anos ou queria construir algo novo para mim? Decidi conscientemente deixar o futebol profissional — não porque deixei de amar o esporte, mas porque queria criar um futuro onde ainda pudesse usar tudo o que o futebol me ensinou."


Na moda, Brian começou no varejo, e depois se tornou buyer e gerente em uma loja de multimarcas, e aqui, Brian entra no futebol mais uma vez, mas agora, por outro lugar:

"Ao mesmo tempo, muitos ex-companheiros de equipe e amigos haviam se tornado jogadores profissionais, e naturalmente esses dois mundos começaram a se conectar. Sinceramente, nunca existiu um grande plano por trás disso tudo. Em certo momento, eu simplesmente me perguntei: qual valor as minhas experiências e relações do futebol ainda têm, e o que acontece se eu combiná-las com moda e consultoria de imagem? Muito rapidamente, percebi que existia uma lacuna na indústria para alguém que realmente entendesse ambos os mundos por dentro. Esse provavelmente é o maior motivo pelo qual atletas confiam em mim hoje."


A lista de atletas vestidos por Brian tem nomes como Florian Wirtz, SZoboszlai Dominink e Jeremie Frimpong do Liverpool, Karim Adeyemi e Manuel Obafemi Akanji, do Inter, além de outros nomes entre esporte, música e arte.

E se antes a distância entre moda e esporte já era menor, em ano de Copa, é praticamente impossível não enxergar esses mundos juntos. Mas, será que existe fórmula perfeita para tornar esse encontro mais fluído, principalmente para atletas que começaram a ter um contato com a moda agora? Para Brian sim, e em um caminho mais colaborativo e honesto dentro da construção:


Alguns clientes já têm um forte interesse por moda e sabem exatamente do que gostam. Outros descobrem um lado totalmente novo de si mesmos através do estilo. Especialmente com atletas, muitos passaram a vida inteira focados apenas em performance. A moda pode se tornar, de repente, uma ferramenta de identidade, confiança, criatividade e autoexpressão fora do esporte. Meu trabalho é entender primeiro a personalidade: como a pessoa se movimenta, fala, pensa, de quais ambientes ela vem e o que deseja comunicar sem forçar isso.
Quando estou construindo a imagem de alguém do zero, autenticidade é o fator mais importante. Se algo parece fabricado demais, as pessoas percebem imediatamente — especialmente no esporte. Os fãs se conectam com honestidade.

Meu papel não é criar uma persona falsa. É ajudar as pessoas a se sentirem mais confortáveis e confiantes em quem elas já são.”


E se a grande discussão no assunto é a "distração" que o interesse pode gerar, a teoria cai por terra:

Em muitos casos, vi como imagem e confiança afetam diretamente a performance. Quando alguém se sente confortável na própria pele, isso muda a forma como essa pessoa se posiciona. Dá para perceber em entrevistas, aparições públicas, oportunidades de patrocínio e até mesmo na liderança dentro de um time. Claro que moda não faz gols, mas confiança muda completamente como atletas operam mentalmente.”


O que antes parecia futuro, hoje já é encarado como presente, e não estamos só falando dos poucos dias que faltam para a Copa do Mundo de 2026, mas também da troca de influência que a moda e o futebol tem movimentado juntos, que tende a se fortalecer ainda mais nessa nova geração de atletas.


Acho que as pessoas devem prestar atenção não apenas nos nomes já estabelecidos, mas também na nova geração de jogadores que está se tornando muito mais experimental e culturalmente conectada ao estilo. Muitos jogadores hoje estão mais ligados à música, arte e moda do que nunca. posso dizer que as pessoas podem esperar um equilíbrio muito mais refinado entre individualidade e sofisticação. Pessoalmente, tenho muito interesse em styling atemporal, em vez de tendências barulhentas. Quero que meus clientes sejam memoráveis porque a imagem parece autêntica e sofisticada, não porque grita por atenção.”


Para o futuro, Brian afirma que além do seu trabalho como stylist e consultor de imagem, tem interesse em construir projetos criativos de longo prazo ligados à cultura, moda e desenvolvimento de atletas:

Acho que ainda existe uma enorme falta de direcionamento para muitos jovens jogadores quando o assunto é identidade, autoconhecimento e vida fora do futebol. Isso é algo que me importa profundamente porque vivi essa transição pessoalmente. Muitas pessoas enxergam atletas apenas como figuras públicas, mas por trás disso frequentemente existe uma pessoa muito jovem tentando descobrir quem é enquanto está constantemente sendo avaliada.


O futebol me ensinou disciplina, resiliência, humildade e como a vida pode mudar rapidamente. A moda me ensinou criatividade, comunicação e individualidade. Combinar os dois me permite ajudar pessoas a amadurecerem, desenvolverem mais consciência sobre si mesmas e se sentirem mais fortes em quem são — não apenas publicamente, mas também no privado”.


No fim do dia, a melhor imagem não é algo artificialmente criado. É quando alguém realmente cresce e se torna quem é de verdade."


A moda pode até não fazer gols, mas ela também reúne histórias como a de Brian, que encontrou nessa paixão, uma nova forma de continuar vivendo próximo ao futebol, mas agora se aventurando pela moda e pela cultura através do esporte. E mesmo que a bola não balance a rede mais, ela com certeza torna jogadores confiantes o suficiente em si mesmos, para que o caminho até driblar o goleiro e fazer gol, seja digno de ser comemorado aos milhares pela torcida e aplaudido em pé em todas as primeiras filas da moda.

Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

Hylentino
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