Chego ao desfile, sento no meu lugar e, enquanto ele não começa — atrasos são mais comuns do que se imagina — leio o release impresso ou adianto a resenha do desfile anterior. Quando começa, é gravar os looks, correr para editar e soltar um vídeo e seguir para o próximo. Essa é a rotina de um jornalista de moda hoje. Tudo precisou se adaptar à velocidade das redes sociais, entre vídeos de 15 segundos e um bombardeio contínuo de imagens.
Depois de um desfile em que a passarela eram espelhos que se quebravam, em uma metáfora sobre a mutualidade da beleza, ou de outro em que a passarela eram banheiros, questionando o que é intimidade, hoje a passarela do desfile de alta-costura da Valentino assumiu a forma de um Kaiserpanorama. No release, Alessandro Michele descreve o dispositivo como “um ritual público fundado no isolamento do olhar”, no qual “cada espectador vê sozinho, ainda que todos vejam ao mesmo tempo”.
Longe de funcionar como uma referência histórica decorativa, o Kaiserpanorama aparece, segundo Michele, como uma forma de “não ampliar a visibilidade, mas restringi-la”. O gesto é claro: em vez de oferecer mais imagens, o desfile cria condições para que o olhar se torne “intencional, situado, consciente de sua parcialidade”.
Não havia hierarquia entre fila A ou fila Z. Todos tinham a mesma visão. Os looks podiam ser observados de costas, de lado, de frente — e em uma lentidão que os detalhes da alta-costura exigem. A visibilidade, como escreve Michele, “não se expande; se contrai”. O olhar deixa de circular livremente e passa a ocupar uma posição fixa. Em vez de acumular imagens, o espectador é convidado a focar em uma só.
Ao transformar o desfile em uma espécie de ritual, Michele reposiciona a alta-costura fora da lógica do consumo rápido. As roupas deixam de funcionar como conteúdos e passam a operar como “presenças que pedem tempo, silêncio e atenção”. E hoje, a gente sabe: tempo virou sinônimo de luxo.
