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Quando eu era criança, tinha pra mim que um dos maiores sinais de riqueza era uma pessoa ter um lustre em casa. Era apaixonada pela luz fluindo entre os cristais, via isso em filmes, novelas de época e, quando vi pela primeira vez na casa de uma das patroas que minha mãe teve, passei um tempo observando a luz (e realizando um sonho). Achava que nada poderia ser mais lindo do que um jantar iluminado por um lustre, e lembrei disso quando vi um enorme na passarela de Zuhair Murad.

Existe uma técnica renascentista chamada chiaroscuro, que se define pelo contraste entre luz e sombra, e é aqui que o desfile do designer libanês começa. Se voltarmos na história, o período Renascentista surge logo após a Idade Média, quando as roupas ditavam a hierarquia entre a nobreza e as classes populares. O corpo era velado, contido; as roupas, mais largas e sóbrias — até que o lustre se acendeu. No Renascimento, a moda passa a evoluir em décadas, e não mais em séculos, graças à mudança de olhar para as roupas: aqui, elas vestem um corpo que merece ser moldado e celebrado.

Quando a primeira modelo entra na passarela, vemos algo praticamente católico. Um vestido todo em lantejoulas, com uma estrutura quase catedral, sustentada pela rigidez da silhueta e pela simetria dos bordados dourados. A mesma riqueza segue em um look de duas peças: a parte de cima tem decote amplo e o busto é todo bordado, assim como boa parte do restante do desfile. Onde o designer economiza aplicações, ele coloca volumes e silhuetas estruturadas; em alguns momentos, equilibra os dois, mas em nenhum se preocupa em não brilhar.

Sinto que esse desfile não é daqueles que contam histórias que fazem nossa mente explodir, é para ver a arte ser celebrada em todos os detalhes. O que é a Alta Costura, se não a nobreza renascentista criando para si peças exclusivas para se admirar? Se naquela época as tendências mudavam em décadas, hoje elas mudam em dias. E se um dos maiores tesouros da Alta Costura é o tempo para criar, é no contraste entre a realidade e o que faz sonhar que Zuhair Murad lembra: a arte é um respiro em tempos sombrios, ainda existe brilho para quem tem tempo para contemplar.

Hylentino

MODA, BELEZA E CULTURA EM UM SÓ LUGAR.

A moda democrática.

Hylentino
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