Hugh Burry tinha 20 anos quando debutou nas passarelas, abrindo um desfile da Versace, em 2018. No ano seguinte, estampou a capa da L’Uomo Vogue — um dos maiores reconhecimentos possíveis para um modelo masculino —, até que a pandemia atravessou sua trajetória. Cansado de viver na estrada, “com a vida dentro de uma mala”, como ele mesmo define, Burry viu no confinamento uma pausa necessária. Foi nesse momento que decidiu voltar para a Austrália e retomar um interesse que vinha de antes da moda: as artes visuais.

Hugh Burry abrindo o desfile da Versace Verão 2019 — Foto: Davide Maestri/ WWD
Hoje, ainda conciliando trabalhos como modelo em seu país de origem, é na arte que ele encontra seu eixo principal. Apesar de reconhecer os paralelos entre os dois universos, Hugh ainda os enxerga como campos distintos — ao menos por enquanto. “Estou aberto a explorar maneiras de cruzar esses dois mundos no futuro”, comenta. Diferente de muitos nomes da indústria, sua relação com a moda não nasceu de um interesse genuíno. Foi, antes, uma oportunidade. “Eu não cresci prestando muita atenção em moda, mas quando surgiu a chance de trabalhar como modelo, vi nisso uma forma de conhecer o mundo e abrir portas”, explica. Com o tempo, no entanto, esse olhar se transformou: o que antes era apenas trabalho passou a dialogar diretamente com sua paixão pela criação e pela autoexpressão.

Hello!, ¡Hola!, 你好… (Hugh Burry) — Reprodução/ Instagram
Essa travessia entre imagem e realidade, aliás, é o que move sua produção artística. Interessado na forma como imagens constroem suas próprias noções de verdade, Hugh investiga, em seu trabalho, os limites entre o real e o fabricado. A experiência na moda, ainda que difícil de traduzir de forma objetiva, deixou marcas — especialmente no olhar para composição e construção de cena. “A moda tem essa capacidade de criar novas realidades por meio das imagens, redefinindo constantemente como entendemos o mundo”, reflete. Mesmo atento aos impactos da cultura de consumo em massa, Burry não busca uma crítica explícita em suas obras. Para ele, a investigação acontece de forma mais silenciosa, quase como um desdobramento natural de quem aprendeu, dentro da própria indústria, a construir imagens — e agora tenta entendê-las por dentro.
“Sou fascinado pela capacidade do mundo da moda de criar novas realidades por meio das imagens, redefinindo constantemente nossa compreensão cultural do mundo. Penso bastante sobre os impactos negativos da cultura de consumo em massa, mas não acho que isso apareça de forma explícita no meu trabalho”

Glass Eyes (Hugh Burry) — Reprodução/ Instagram
O paranaense Cristian Isoton, 23, vive uma vida dupla à la Hannah Montana: em São Paulo, cruza passarelas de nomes como Herchcovitch; Alexandre, Piet e Normando; em Toledo, sua cidade natal no Paraná, além de um aquarelista de primeira, ele também estende seu conhecimento dando workshops de aquarela e lettering, além de ser gerente de uma papelaria que confecciona convites de casamento, onde ele fica responsável da escrita à ilustração — e tudo feito à mão. A paixão do modelo e artista pela arte surgiu ainda criança, quando, na escola, em atividades que envolviam arte, ele se destacava — mas não era ele que achava isso, e sim sua professora Dinara Orlando, que percebeu a sensibilidade artística que ele tinha e o presenteou com uma revista de pintura a óleo, como ele relembra. Isoton também tinha o sonho de ser pintor.

Cristian Isoton desfilando para Herchcovitch; Alexandre — Foto: Zé Takahashi
Mas foi na pandemia, após terminar o ensino médio, em 2019, e resolver começar a estudar para vestibulares, que Cristian percebeu que tinha uma sensibilidade artística aguçada. A expectativa familiar era que ele cursasse Agronomia ou correlatos para dar continuidade ao trabalho na fazenda da família, mas foi graças a uma aquarela que sua madrinha, Onice Heiss — como ele fez questão de contar o nome dela com muito carinho —, o presenteou, e que, durante o confinamento, serviu como uma forma de refúgio para manter a saúde mental no lugar.
Para produzir suas pinturas, ele tinha que estudar sketches e, consequentemente, poses. Mas mal sabia ele que, no fim de 2020, seria descoberto como modelo. Mesmo sem nenhum conhecimento da indústria, ele já tinha repertório de movimento por conta do seu trabalho artístico.
“Quando eu comecei [a modelar], eu já tinha referência de poses para modelar, e isso impactava eu fotografando”.
Já hoje, Cristian contou que consegue criar um sketch do zero, muitas vezes pegando a própria vivência de modelo e também poses de outros amigos modelos para criar suas obras.

Reprodução/ Instagram
“Eu tenho certeza: esse é um caminho que eu tento seguir. Ao mesmo tempo, eu tento priorizar a carreira de modelo, então existe essa dualidade. Talvez eu precise viajar, por causa do trabalho, e isso acaba dando uma pausa na arte”, disse ele ao refletir sobre os limites de tempo impostos pela moda e a possibilidade de expansão na arte. “O que eu percebo é que a forma como as pessoas enxergam o meu trabalho mudou — principalmente depois que voltei da China. Isso me fez pensar mais seriamente na arte como um espaço possível de continuidade”, continuou Isoton, antes de eu perguntar se ele achava que a moda agregou valor na sua carreira de artista.
A história dele é quase parecida com a do paulistano Pedro Brantes, 24, crescido em Guarulhos. Foi por meio da arte que, desde criança, ele encontrou uma forma de externalizar os seus sentimentos — ainda mais sendo uma criança LGBT e filho de pais divorciados, como ele mesmo disse. Aos 5 anos, enquanto as outras crianças ainda rabiscavam, Pedro já desenhava e escrevia, e sua professora achou melhor pular ele de série. Aos 12, sua mãe — que, por sinal, era modelo fixa da TV Gazeta — foi transferida para São José dos Campos. Já no nono ano, prestes a entrar no ensino médio com 13 anos, foi nesse momento que Brantes começou, talvez, a se reconhecer como artista.

Pedro Brantes desfilando para a Misci — Foto: Zé Takahashi
Desde muito novo, o desenho já funcionava como uma forma de expressão, mas foi ali que isso se intensificou: ele passou a desenhar muito, e foi também quando decidiu que prestaria vestibular para algum curso relacionado à arte. Aos 16, entrou em Artes Visuais na Unicamp. Na escola, ele já desenhava muitos modelos — a moda, de alguma forma, sempre esteve ali, ainda que de maneira internalizada. Foi durante a pandemia, três anos depois de começar a faculdade, que esse interesse ganhou outro contorno. Ele começou a estudar mais sobre moda, a seguir fotógrafos, até que Guilherme da Silva o convidou para fazer um ensaio autoral em um parque.

Self III (Pedro Brantes) — Foto: Reprodução/ Instagram
A partir dessas fotos, duas foram enviadas para uma agência, que se interessou e o chamou em 2021 — e foi aí que tudo começou. “Eu acho que eu já tinha tido uma experiência de vida, de estudo, como artista, e acho que isso me possibilitou entrar na moda com uma cabeça boa”, conta. Desde então, ele é presença nas semanas de moda do país e construiu uma relação próxima com a Misci, de Airon Martin. Mas a carreira de modelo não fez ele deixar a arte para trás — muito pelo contrário. Assim como Isoton, ele faz as duas coexistirem.
“Eu acho que o meu processo artístico é 100% afetado pela moda. Eu sou muito biográfico, então inevitavelmente estou falando sobre a minha vida”
A vivência como modelo atravessa diretamente suas pinturas. E o caminho inverso também acontece: a arte influencia sua forma de modelar, principalmente na hora de fotografar. “Pensar imagem, pensar pintura, me traz uma noção de composição, de pose, de algo diferente.” Um dos exemplos é uma das mais recentes obras do artista: uma pintura do também modelo Bráulio Tchípia, que parece uma fotografia saída de uma campanha de moda.

Reprodução/ Instagram
Natural de Porto Alegre, Gab Adams construiu seu caminho entre a arte e a moda. Hoje, desfila para nomes como LED, Misci, Aluf e Marina Bitu, mas sua trajetória começa bem antes das passarelas — e bem longe delas. Ela veio para São Paulo aos 13 anos, com o sonho de ser atriz. Foi ali que começou a se envolver com arte de rua, grupos de teatro independente, palhaçaria e circo. Durante anos, seu foco era um só: entrar na Escola de Arte Dramática da USP. No meio disso, precisou dar conta de tudo ao mesmo tempo. “Fazia um trabalho dobrado pra sustentar meu trabalho como artista”, conta. Trabalhou como garçonete, telemarketing, petsitter, babá — o que fosse necessário para sobreviver em um contexto que, segundo ela, era marcado pela escassez.

Gab Adams desfilando para a LED — Foto: Zé Takahashi
“Eu só via pessoas se doando completamente pra arte e tendo que pagar pra fomentar os próprios projetos, sempre à margem. Como se o trabalho artístico fosse um hobby.”
Ela conseguiu entrar na faculdade e se formou, mas a realidade não mudou tanto assim: ainda estava longe de conseguir se sustentar como artista. Em algum momento, precisou deixar a atuação de lado para dar conta da sobrevivência.
Foi no final da pandemia que a virada aconteceu. Uma amiga a indicou para conhecer uma agente de atores da Mega Model e, ao chegar na agência, foi direcionada para a mesa de bookers. Eles apostaram nela — e rápido. Logo veio uma campanha grande, com um cachê que, nas palavras dela, mudou completamente sua perspectiva de vida. A moda, então, abriu um outro campo de possibilidade. “Ela me fez entender o trabalho criativo como um trabalho possível”, diz. Foi também através dela que conseguiu, pela primeira vez, viabilizar sua produção artística. Porque, como ela mesma resume: sem dinheiro, não dá pra fazer arte.
“A moda, pra mim, não está só na roupa. Está no set, no backstage, no movimento de todo mundo que faz aquilo acontecer.” É desse atravessamento que nasce o projeto Pague Artistas Vivos. Inicialmente uma instalação, hoje ele se desdobra como intervenção urbana, em lambes, pixos, camisetas e outros suportes que possam circular pela cidade. A ideia parte de uma inquietação pessoal, mas que rapidamente se revela coletiva: por que a arte ainda é atravessada pela lógica da escassez? “Eu parti da pergunta: ‘o que eu estaria produzindo se soubesse que posso pagar o aluguel?’”, conta.

Reprodução/ Instagram
Mais do que uma crítica, o projeto é uma tentativa de reimaginar o lugar do artista. “Artista, pra mim, não é quem é famoso. É quem tá no corre”, diz. Para Gab, a arte de rua é um dos principais marcadores da memória cultural de um país — justamente por ser acessível, por atravessar sem pedir permissão. E é nesse lugar que Pague Artistas Vivos continua existindo: como um convite ao diálogo sobre reconhecimento, autoestima e, principalmente, remuneração.
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